“Pudor” - Sentimento de vergonha. = CONSTRANGIMENTO, EMBARAÇO, PEJO
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
É essa palavra, o que ela representa, a relação
que se tem com ela, o modo como a assimilamos, sem mesuras nem desprezos, a insuficiência respiratória que
causa, o modo como permitimos que amplie as nossas inaptidões natas ou
adquiridas para o descaramento e o grotesco, é essa palavra a explicação de tantas páginas em branco
no meu caderno de apontamentos. Pudor - é nesse conceito que assenta a raiz de
toda a agressividade que emergiria, por certo, à superfície dos dias que passam,
adicionando peçonha à peçonha que vai sendo vertida sem vergonha e sem pudor. Não
fosse a sensatez do Pudor impedir-nos de o subestimar, como se, subestimando-o,
pudesse ele desvincular-nos do que somos ou julgamos ser, e tornar-nos-íamos todos,
seres aterradores, adaptados à vida em campos de batalha onde vale tudo (inclusive
tirar olhos) até à plena desfiguração do humano.
Ó Pudor,
por ti, quantas páginas desertas, quantas flores por trucidar, quando pássaros
por matar?
Se soubessem o que custa povoar um deserto sem
fugir ao Pudor que nos habita, que habitamos como se recusássemos fazer
ribombar os tambores da guerra, de qualquer guerra... A saída? Procurar a inútil
beleza das coisas. Quero lá saber dos sábios que criticam ferozmente a poesia dos azuis, do mar,
dos quintais, das árvores, das mãos cuidadosas das mães e das avós. Quero lá
saber! Não obstante a inutilidade que, como tudo, é literatura, e como tal,
ficção, estar aqui, conscientemente iludida, desobediente, embalada pela luz de
uma canção trauteada em surdina é conforto, apaziguamento e autenticidade.
O momento, note-se, não as palavras que o dizem,
obviamente.
Lídia Borges
(pintura - Jeffrey T. Larson)
