sábado, 15 de abril de 2023

Pudor

 


“Pudor” - Sentimento de vergonha. = CONSTRANGIMENTO, EMBARAÇO, PEJO

 in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

 

É essa palavra, o que ela representa, a relação que se tem com ela, o modo como a assimilamos, sem mesuras nem desprezos, a insuficiência respiratória que causa, o modo como permitimos que amplie as nossas inaptidões natas ou adquiridas para o descaramento e o grotesco, é essa palavra a explicação de tantas páginas em branco no meu caderno de apontamentos. Pudor - é nesse conceito que assenta a raiz de toda a agressividade que emergiria, por certo, à superfície dos dias que passam, adicionando peçonha à peçonha que vai sendo vertida sem vergonha e sem pudor. Não fosse a sensatez do Pudor impedir-nos de o subestimar, como se, subestimando-o, pudesse ele desvincular-nos do que somos ou julgamos ser, e tornar-nos-íamos todos, seres aterradores, adaptados à vida em campos de batalha onde vale tudo (inclusive tirar olhos) até à plena desfiguração do humano.

 Ó Pudor, por ti, quantas páginas desertas, quantas flores por trucidar, quando pássaros por matar?

Se soubessem o que custa povoar um deserto sem fugir ao Pudor que nos habita, que habitamos como se recusássemos fazer ribombar os tambores da guerra, de qualquer guerra... A saída? Procurar a inútil beleza das coisas. Quero lá saber dos sábios que criticam ferozmente a poesia dos azuis, do mar, dos quintais, das árvores, das mãos cuidadosas das mães e das avós. Quero lá saber! Não obstante a inutilidade que, como tudo, é literatura, e como tal, ficção, estar aqui, conscientemente iludida, desobediente, embalada pela luz de uma canção trauteada em surdina é conforto, apaziguamento e autenticidade.  

O momento, note-se, não as palavras que o dizem, obviamente.

Lídia Borges

(pintura - Jeffrey T. Larson)