quinta-feira, 13 de abril de 2023

Poema largo

 

Voltar, atravessar a faixa luminosa de luz

que rompe pela porta entreaberta de um poema

estreito de Bernardo Pinto de Almeida

 

e penetrar na amplitude verde de abril a invadir os olhos:

as roseiras encheram-se de botões perfeitos, em espera,

algumas tulipas perderam as pétalas, outras, laboriosas, acharam-nas,

 

as azáleas cor de sangue gesticulam nos vasos da entrada, as pereiras

expõem a extrema delicadeza das flores em ramalhete,

os galhos da magnólia são agora mãos abertas aos ninhos.

 

Dou os ouvidos às notícias do mundo sempiternas como se não soubesse...

raízes, ramos, folhas, flores, imutáveis. De novo apenas a queda súbita

de uma ou outra estrela da galáxia mais venerada.

 

As estrelas de(cadentes) não servem para Poesia.

É aqui que deponho a caneta. Entrego os sentidos aos trinados, lá fora,

largos. O poema sumiu-se rapidamente entre as brumas da palavra.


Lídia Borges