domingo, 19 de novembro de 2023

Fazer o quê?

 

I

Não há lugar para ti na mesa do pequeno almoço.

O café continua quente, o pão fresquíssimo,

a manteiga acabada de bater.

Preparei a casa para ser inteira sem ti,

retirei a cortina da janela no sótão,

está agora totalmente aberta à montanha,

o serpenteado da estrada que te traz

é muito mais rápido nos declives que te levam.

Já não te quero no meu sonho.

 

 II

E assim, estás sempre em viagem.

Como se um sonho fosse matéria,

para vagas horas vagas, somente.

Aprendi a colher as flores silvestres,

que me oferecias,

a dar-lhes forma vivas nos recantos da sala;

aprendi o caminho das amoras,

as canções das fontes, a voz dos pássaros;

aprendi a ler os mistérios no olhar dos gatos,

aprendi o véu de neblina cobrindo os pinheiros bravos;

aprendi o calor da lareira, o livro, o silêncio,

aprendi o eco de mil cantos onde colho brilhos,

quando escura a respiração noturna.

 

 III

Que queres tu, agora?

Ligar ou desligar meu sonho já não está ao alcance

de um gesto teu.

Reparei hoje que a madeira do banco

onde nos sentávamos defronte do sol nascente

apodreceu.

Já não há lugar seguro onde nos sentemos

nem verso meu que te sustenha nos meus poemas.

 

Fazer o quê?



Lídia Borges (De: Histórias de Mulheres)

(imagem: Pinterest)