I

O café continua quente, o pão fresquíssimo,
a manteiga acabada de bater.
Preparei a casa para ser inteira sem ti,
retirei a cortina da janela no sótão,
está agora totalmente aberta à montanha,
o serpenteado da estrada que te traz
é muito mais rápido nos declives que te levam.
Já não te quero no meu sonho.
E assim, estás sempre em viagem.
Como se um sonho fosse matéria,
para vagas horas vagas, somente.
Aprendi a colher as flores silvestres,
que me oferecias,
a dar-lhes forma vivas nos recantos da sala;
aprendi o caminho das amoras,
as canções das fontes, a voz dos pássaros;
aprendi a ler os mistérios no olhar dos gatos,
aprendi o véu de neblina cobrindo os pinheiros bravos;
aprendi o calor da lareira, o livro, o silêncio,
aprendi o eco de mil cantos onde colho brilhos,
quando escura a respiração noturna.
Que queres tu, agora?
Ligar ou desligar meu sonho já não está ao alcance
de um gesto teu.
Reparei hoje que a madeira do banco
onde nos sentávamos defronte do sol nascente
apodreceu.
Já não há lugar seguro onde nos sentemos
nem verso meu que te sustenha nos meus poemas.
Fazer o quê?
Lídia Borges (De: Histórias de Mulheres)
(imagem: Pinterest)