FELIZ NATAL
Um destes dias, pela manhã, ao abrir a porta da rua, pousado no tapete, um saco, de tamanho considerável, esperava mãos que lhe pegassem. Lá estava o castelo prometido, há precisamente um ano, para ampliar o presépio. Obra artesanal feita com todos os pormenores: as ameias bem recortadas, os muros envelhecidos à força de areia colada e pintada à cor da pedra gasta, as portas e os portões, as guaritas. Um trabalho feito com mãos generosas, mas sobretudo com a alegria própria de quem oferece sem esperar recompensa, elogio ou agradecimento.
Tem uns
oitenta anos, uma família numerosa e unida. São nossos vizinhos, há longo
tempo. Dedicou toda a sua vida à docência e, desde que se aposentou, os netos, crescidos
de mais para exigirem a sua atenção, toma a seu cargo todos os afazeres
quotidianos que lhe aparecem pela frente, mesmo tendo de ouvir, algumas vezes, os ralhetes da família que não o querem cansado, pensam que já não tem idade para certas coisas e dizem-no frequentemente.
Reserva
sempre uma palavra amiga para todos e cada um dos vizinhos, acolhendo dois
dedos de conversa como uma dádiva dos céus. Alinda o jardim, faz reparações em casa e
fora dela, pinta os muros, lava o pavimento em volta da casa, vai ao pão. E
quando se julga que nada mais tem a fazer, oferece-se para ajudar a cortar a
relva, podar uma sebe, consertar o que quer que seja que precise de conserto, nas
casas e jardins próximos. É de uma dedicação e delicadeza que se estranha porque
vem de outros tempos.
Quando o
meu neto Matias tinha dois anos (com cinco, presentemente) o senhor Pinto iniciou
a construção de um presépio para ele (agora, também para o irmão mais novo que nasceu,
entretanto). Primeiro foi a cabaninha. Uma obra de arte, diga-se de passagem. Completa, com janelas iluminadas e tudo. Vinha acompanhada de várias figuras: Nossa
Senhora, São José, os Reis Magos a rondarem a entrada, a manjedoura, a vaquinha
o burrinho, o poço, a aguadeira, o moinho, os pastores, as ovelhas, o sapateiro…
No ano da cabaninha, anunciou que, no
Natal seguinte faria o coreto. E assim foi, um palanque com escadas e tudo. A banda em ação ao tom da batuta do maestro. Nesse ano - o ano do coreto - anunciou
que 2023 seria o ano do castelo. E cumpriu.
O Matias e o Tomás passam muito tempo, em volta do presépio, a ouvir e a inventar histórias. Acontece, não raramente, ir encontrar o Menino Jesus ao relento, junto do coreto da música, a vaquinha perdida, atrás do moinho, os músicos na cabaninha, a tocar para uma ovelha que descansa nas palhinhas deitada. Por tudo isto não estranhei, hoje, de manhã, encontrar uma ambulância (de lata) estacionada, para admiração dos patos, junto ao lago, onde jazia o homem do tambor com uma fratura exposta nos pés (de barro). Coloco ordem naquilo tudo e o presépio fica pronto para novas aventuras.
Este ano, juntamente com o castelo vinha uma carta do senhor Pinto. A dada altura, escreve assim:
[…]
Aqui
está o castelo prometido e um guarda (com arma e tudo) para ficar no portão
principal.
Matias
e Tomás, desejo-vos um Feliz Natal, junto dos pais, dos avós e da restante
família.
Fica já
aqui prometida uma ponte para o próximo Natal.
Muitas Felicidades e beijinhos do:
Há quem diga que o senhor Pinto começa a dar mostras de alguma senilidade. Duvido. Quem assim se defende da inércia, da fatalidade de estar velho, da recusa em se acomodar, sentar diante de um televisor a debitar banalidades, não pode estar a perder o juízo. Fazer planos para o futuro, praticar o bom humor, a alegria de viver e conviver, a sabedoria de transmitir saberes e tradições...
A perder o
juízo?! Deixem-se disso!
