terça-feira, 26 de março de 2024

A ilusão nova



Bem sei que as ilusões são ilusões. Mas quando não há mais nada para nos encher a alma e ela

vazia é um cristal de angústia, porque não enchê-la de ilusões?

Encomendei ao Deus do Espaço uma ilusão nova. Deve estar a chegar.


Sinto rir ao longe. É ela que vem. Com certeza é ela. Ninguém ri

à minha volta a não ser as ilusões.

Vou espreitar a sua chegada.

E se ela tem medo de mim e foge?

Não foge. Vou devagarinho…


Lá vem. Toda de azul!

E a sorrir!

Que grande que esta é! Vai dar para tanto tempo!...

Que é aquilo? Pára? Hesita?

Ah!... Não vem para aqui…

 

                                                                                                          13/08/1938

 

Jorge de Sena, Obras completas Poesia 2.