Se houvesse hoje uma cadeira no pátio,
o gato, atraído pelo sol, tê-la-ia ocupado
e teríamos assim uma imagem natural
conforme uma manhã primeira de primavera.
Se não fosse a cor exagerada das azáleas
a entornar pingos de sangue pela sombra,
se no canteiro dos morangos, não adoecesse a flor
e os dedos da brisa não buscassem em vão
o tato de um rosto amado,
talvez tu estivesses aqui e a página sem ti
fosse apenas uma lembrança tardia
a retalhar o pensamento.
Talvez eu não tivesse partido de um poema
de fundo azul e glicínias sobre o muro
para o ermo de uma estrofe em cacos
onde as crianças têm olhos demasiado adultos
corpos envelhecidos e bocas famintas,
onde, as palavras, letra morta, lixo, ineficácia.
Enlouquecem os cata-ventos apontando a primavera
em todas as direções e contradições,
alheios à presença das árvores desnudas,
ao desabamento dos ninhos, ao horror das horas,
que se repetem sem fim
no relógio parado da torre da Insânia.
Se no pátio hoje uma cadeira vazia…
Que é de ti? Para onde fugiste, Poesia?
Lídia Borges
(imagem Pinterest s/ind. de autoria)
