quarta-feira, 20 de março de 2024

Cadeira



Se houvesse hoje uma cadeira no pátio,

o gato, atraído pelo sol, tê-la-ia ocupado

e teríamos assim uma imagem natural

conforme uma manhã primeira de primavera.

 

Se não fosse a cor exagerada das azáleas

a entornar pingos de sangue pela sombra,

se no canteiro dos morangos, não adoecesse a flor

e os dedos da brisa não buscassem em vão

o tato de um rosto amado,

talvez tu estivesses aqui e a página sem ti

fosse apenas uma lembrança  tardia 

a retalhar o pensamento.

 

Talvez eu não tivesse partido de um poema

de fundo azul e glicínias sobre o muro

para o ermo de uma estrofe em cacos

onde as crianças têm olhos demasiado adultos

corpos envelhecidos e bocas famintas,

onde, as palavras, letra morta, lixo, ineficácia.

 

Enlouquecem os cata-ventos apontando a primavera

em todas as direções e contradições,

alheios à presença das árvores desnudas,

ao desabamento dos ninhos, ao horror das horas,

que se repetem sem fim

no relógio parado da torre da Insânia.

 

Se no pátio hoje uma cadeira vazia…

Que é de ti? Para onde fugiste, Poesia?


Lídia Borges

(imagem Pinterest s/ind. de autoria)