domingo, 28 de abril de 2024

Da terra

 


Do canto da terra

sei o fruto, a polpa e a casca,

sei o refrão a entoar ternuras

na voz dos pássaros.

 

Do seu pranto

sei os homens,

as magras paisagens

de áridos futuros.

 

Alguns dizem – bastam-me as mãos

para fazer brotar fontes e rios,

outros porém,

de muitas sedes nascidos,

bebem até à derradeira gota

as fontes e os rios

e dizem – bastam-me as mãos

para fazer brotar desertos.

 

Da terra sei a secura

e a interdição da água

na véspera da lágrima.

 

Lídia Borges (2011) No Espanto das Mãos/ O Verbo.