I
Há muito que guardo religiosamente
numa velha cesta de muitos usos e
desusos
coisas segundas, sobras de importância menor
que utilizo unicamente para alimentar
meus versos de todos os dias:
as cerejas, as cantigas e as rosas de maio,
os pardais boleando ninhos nos limoeiros,
o teu olhar desatado dos olhares meus
eu, sempre presa a viagens que não vislumbras,
eu, desdobrando imagens, sem corpos seguros
como brancos lençóis estendidos ao vento
onde nunca te deitarás.
II
Alfabetos menores – dirão alguns - léxicos básicos,
escassos,
coisas banais, a bem dizer,
mal dizem os bardos atuais, sábios,
sóbrios, maquinais.
E contudo… sabem lá explicar como um breve quase-nada
pode bastar para encher de sentidos o rumor
da água
que brota nas ladeiras da existência.
Quem diria que uma velha cesta para arrumar desarrumos
pudesse guardar em si prenúncios de quase-tudo.
Lídia Borges (26/04/2024)
