sábado, 27 de abril de 2024

Desarrumos



I

Há muito que guardo religiosamente

numa velha cesta de muitos usos e desusos

coisas segundas, sobras de importância menor

que utilizo unicamente para alimentar

meus versos de todos os dias:

 

as cerejas, as cantigas e as rosas de maio,

os pardais boleando ninhos nos limoeiros,

o teu olhar desatado dos olhares meus

eu, sempre presa a viagens que não vislumbras,

eu, desdobrando imagens, sem corpos seguros

como brancos lençóis estendidos ao vento

onde nunca te deitarás.

 

II

Alfabetos menores – dirão alguns - léxicos básicos, escassos,

coisas banais, a bem dizer,

mal dizem os bardos atuais, sábios, sóbrios, maquinais.

 

E contudo… sabem lá explicar como um breve quase-nada

pode bastar para encher de sentidos o rumor da água 

que brota nas ladeiras da existência.

 

Quem diria que uma velha cesta para arrumar desarrumos

pudesse guardar em si prenúncios de quase-tudo.


Lídia Borges (26/04/2024)