quarta-feira, 22 de maio de 2024

Existência

 


Ainda aninhada no ventre da mãe

por entre as vibrações amnióticas,

ouviste um rumor de que a mulher seria sempre

presença útil, imprescindível, permanente,

porém, sem direito ao chão da própria existência.

 

Riste pela primeira vez na cara do absurdo e era-te estranho rir,

sem os dentes que hoje tens,

um riso incrédulo e inocente  

desfeito no sal das lágrimas de tua mãe.

 

E porque eras já um ser pensante,

pensaste:

haveria de ser árduo o nascer. E o viver

de quem vem para estar e não para ser.


Tanto mito a combater,

tanta fala mestra falaciosa

tanto dito sem sentido, mil vezes repetido,

elocução vil ou mancha na visão

tanto atalho rasteiro, rafeiro,

a querer-se condenação, 

nascimento primeiro.



Lídia Borges