domingo, 5 de maio de 2024

Nem às paredes confesso

 


Apanhei-te a cantarolar baixinho,

tão baixinho

que só por sorte e extrema atenção

alcancei ouvir-te.

À margem das maleitas

das tuas muitas primaveras,

cantarolavas

baixinho, baixinho,

não fossem julgar-te

demasiado alegre,

como se temesses

que te achassem tonta

ao abrigo da norma 

da prudência e do siso 

que diz tristes, mudos e parados,

todos os velhos.

 

E tu, afinadíssima:

De quem eu gosto

Nem às paredes confesso

E nem aposto

Que não gosto de ninguém.


Canta, canta, canta mais alto

que já te não oiço, Mãe!

 

 Lídia Borges  - (À minha mãe)