segunda-feira, 3 de junho de 2024

Instante

 

O Falso Espelho, 1928. René Magritte


Completamente só,

embrenhada num extraordinário silêncio

acontece dares por ti num lugar sem lugar

nos teus mapas interiores.

Ínfimo e fugaz o instante,

mas ali estavas tu,

inesperadamente,

defronte de ti mesma.

 

Ainda mal a imagem se revelava

a afirmar a consciência de quem és

e, logo, esvaecimento e dispersão.

Que pena!

De nada vale o malogrado gesto de agarrar,

de querer trazer ao real essa fugidia parte de ti.

Bem sei. Teme a pronunciação da dor.

 

Todavia, encará-la, ainda que de modo efémero,

é já uma feliz aproximação,   

uma súbita possibilidade de encontro.

 

Lídia Borges