Desta vez, saímos só por sair. Fomos indo, devagarinho, para sul com os sentidos descerrados ao inesperado. Deixámos de fora, areia e mar…
Levei comigo um livro de poesia. Um só. Sabia que, com um pouco de sorte, haveria de encontrá-la, em estado puro, nas planícies amplas do interior: nas searas, em fase de maturação (assim nos diz o louro das espigas); nas papoilas de um vermelho que não há; nos olivais, a perder de vista; nas vinhas em longas fileiras; nas aldeias brancas, aninhadas nos vales e nas encostas; nos cerejais de doçuras feitos; na serra maior onde coram ao sol, ainda, alguns lençóis de neve, aqui e ali, como se não fosse alta já, a primavera.
Haveríamos de fotografar grandes construções, umas saídas de humanas mãos, outras de mãos divinas…
Haveríamos de recolher boas palavras das pessoas que encontrámos, nos alojamentos, nos restaurantes, nos museus…
Na Covilhã, por exemplo, no Museu do Queijo, onde chegámos tarde e sem marcação prévia, receberam-nos com enorme simpatia. Éramos dois e tivemos direito a uma visita guiada, muito interessante, prevista só para grupos. Uma descrição bastante pormenorizada sobre o passado da região: fauna, flora, pastorícia, alimentação, habitação, defesa e família.
Como, entretanto, se fizera hora de fechar, deixaram-nos, comodamente instalados, a degustar uns queijinhos, não sem antes nos explicarem as origens e especificidades de cada um. – “Quando acabarem saiam por ali. É só bater a porta" – pediu a D. Paula, entre um sorriso e um pedido de desculpas. Antes de sairmos, dei por mim a escrever numa folha do bloco que trago sempre comigo, um agradecimento, assinalando a simpatia, o acolhimento e a familiaridade com que fomos tratados. Tão bom!
E haveríamos de voltar a casa, ao meu canto onde talvez vá escrever palavras, frases que trago no peito, terra da minha terra.
Dizer, talvez, este sentimento alargado de pertença que me diz inequivocamente daqui.
Lídia Borges



