sábado, 29 de junho de 2024

Sei de ti

 


Como um chuvisco de nada

a tua voz derrama-se no meu coração

sem ruído nem cântico.

Presença somente,

Sei de ti debaixo de uma claridade rara,

sei de ti.

 

E inspiro e expiro mais devagar

não vá a aragem querer desdizer

[como tantas vezes desdiz] a consistência

do instante.

 

Nenhuma palavra ousa a subida aos lábios.

De vidro frágil os alfabetos,

de candura e miosótis o silêncio

que os define.

 

Mãos mendigas, as nossas, agarram-se                                       

à insuportável ternura dos dias

que descem rumo ao mar.

Paulatinamente.

 

 

Lídia Borges

(Pintura: Anne Packard)