Vista de longe, a cidade é um amontoado de caixas, caixinhas e caixotes de uma só cor e distintos tamanhos. Porém, à medida que nos aproximamos, reparamos na torre: uma torre (não sei se de marfim) rigorosamente trabalhada, estreita e altíssima como as mais altas que a História da arquitetura já registou. Os que ali têm acesso gozam de uma paisagem privilegiada sobre toda a Cidade, além de usufruírem da possibilidade de controlar a vida e até a morte de quantos habitam os pisos inferiores.
De mais
perto, percebe-se melhor a configuração daquele mapa onde tudo parece decorrer
com normalidade e legalidade santas. As caixas sobrepostas em formato de
pirâmide são bem delineadas e de estruturas sólidas, concebidas com o intuito de
seriar e organizar. Na base situam-se as caixas de rasas dimensões,
horizontais, e sobre estas outras que vão sendo reduzidas progressivamente na
sua área de apoio e aumentadas, muito ligeiramente, na altura das paredes laterais. Assim até ao topo: a torre elevadíssima, iluminadíssima e, porque nada mais há acima, aberta ao imenso universo celestial. Não seria desprovido de sentido aplicar-se, aqui a expressão do
astronauta Alan Shepard - "O céu é o limite". Se as raízes
são quem suporta, nutre e mantém o paraíso descrito, isso é outra conversa que
aqui não cabe, hoje.
Nas caixas de baixo, acontece, por vezes, existir quem cresça mais que o previsto e atinja, contra todas as expectativas, a altura máxima que lhe está previamente reservada, dentro do espaço onde se move. Azar o dele, pois corre o risco de sofrer sérios danos na coluna vertebral por se encontrar, sua cabeça perigosamente pressionada contra o teto inabalável. Nada nem ninguém o salva do terrível incómodo da posição a que se vê obrigado. Ao contrário, na parte mais elevada da pirâmide, aos de crescimento lento e débil, é fornecida uma escada de fácil acesso que lhes proporciona uma altura, ainda que fictícia, compatível com a média dos comparsas da sua caixa-berço.
E assim (dizem-me) todos ali são felizes, cada um no lugar que lhe cabe e aqueles que nele não encaixam, ou aguentam a dor no pescoço ou tentam diariamente abrir nos caixotes janelas para o Sonho. Alguns (dizem-me) jogam-se delas. Uns caem, e ficam de fora, ao desabrigo, outros aprendem a voar.
Vista de dentro, a Cidade fede.
Lídia Borges
