domingo, 21 de julho de 2024

Imagens de Pensamento (Walter Benjamin)


 

Não gosto de leituras na praia. Ficam-me as imagens cheias de areia, umas vezes salgadas, outras, instáveis, tomadas pela nortada, isto já para não falar da languidez pegajosa das bolas de berlim que rolam rapidamente do pregão do vendedor  para as bocas que haviam recusado a sopa, ao almoço. São alguns dos efeitos secundários na reparação de ausências prolongadas. Estragar com mimos é o que, em tempo de férias,  melhor sei fazer. 

 Carrego baldinhos de água, ajudo na construção de castelos e de túneis que vão daqui até à China, quando não,  até à lua (o que só as crianças sabem fazer com rigor e propriedade), trato das forminhas, das pás, dos engaços, trocamos palavras do norueguês para português, rimos, rimos muito.  

Aos livros, poupo-lhes a viagem, através dos intermináveis passadiços para a beira-mar. Poupo-os ao ronronar dos dias sem Pensamento, amor e graça, somente.  

À noite, atento na passividade das páginas silentes. Abro-lhes as portadas. Acordo-as. Mantêm-me acordada. 



Mercadoria Chinesa

Nos tempos que correm ninguém pode fazer finca pé naquilo que «sabe fazer». O triunfo é a improvisação. Todos os golpes decisivos serão desferidos com a mão esquerda. 

Há um portão, no início de um longo caminho que, monte abaixo, leva à casa de..., que eu visitava todas as noites. Quando ela se mudou, o portão aberto passou a estar diante de mim, como a concha de uma orelha que perdeu o ouvido.

[...]


Walter Benjamin (Novembro, 2004) Imagens de Pensamento, edição e tradução de João Barrento.