segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Zunido



Vejo como a noite desce do teto.

Sua gravidade comeu-me a língua,

desampliou-me,

abreviou minhas intenções

de orvalho.

 

Verifico certas incompetências

para o lavradio das horas.  

Meu horizonte é um alfabeto 

de andorinhas por vir.

 

Ocupa-me o inseto azoado 

que veio morar em meu ouvido.

Zune, insubmisso. 

Tesouras esporeadas pelo vento

estão a devorar-lhe as asas. Eu oiço.


Em breve calar-se-á.


Lídia Borges (reeditado)

(Imagem: surrealismo, Pinterest)