No grupo, ela era a miúda
mais incómoda,
a que só falava de coisas
que vêm nos livros,
a que sabia calar-nos a
todos
com uma ou duas palavras,
inesperadas.
Não fosse isso e
talvez até me tivesse
apaixonado
pelo verde sombrio dos olhos,
pelos gestos suaves, a
postura firme.
Mas havia nela aquela ilusão
dos loucos:
fazer do mundo um jardim.
Defeito mais que imperfeito.
Que viagens me sondariam
os pés,
por ilhas e mares ignotos
para lhe tocar o coração?
E ela? tão vestida de mil
vagas
em constante movimento
o que faria para me
escutar?
Talvez noutro livro
tantas vezes escrito
ela possa ser a miúda
mais calada do grupo
e eu o rapaz, sem sonhos,
dos seus sonhos.
Ou, talvez, este livro em
branco
onde nunca a soube
escrever
seja a minha obra-prima.
Sobre a mesma, nada tenho a
dizer.
Lídia Borges
(imagem: pinterest)
