I
Eu sei que sim,
que existem poetas à
altura dos tempos que correm.
Grandes, sábios, fecundos,
capazes de fazer deslizar
à superfície das palavras
as mais impressionantes ruínas do Tempo,
deixar à vista de todos,
a ossatura que ficou
do desmembramento do humano.
Eu sei que sim, porém…
que gume é este que nos fere a alma
à saída dessas páginas
tão autênticas, tão
verdadeiras, tão reais?
Onde o excesso de revelação
as coisas que acordam estremunhadas
para desordenar a ordem do instituído.
Onde o Imaginário?
Diz-me, Jorge Luis Borges
não é ele já a qualidade suprema
do escritor.
Que gume é este?
Comparável apenas ao absurdo
de
um jardim sem rosas,
de um coração vedado à Poesia.
Uma espécie de extermínio do Sol,
a morte completa do feitiço da
palavra.
II
Cantam-se os labirintos bafientos
da noite,
o deslumbrado orgulho de
uns, poucos
[altos, fortes, bonitos]
na conquista do Outro,
sempre forçado a ajoelhar
perante a perfídia dos
deuses de agora.
Lídia Borges
