sábado, 17 de agosto de 2024

Eu sei que sim, porém...

 

I

 

Eu sei que sim,

que existem poetas à altura dos tempos que correm.

Grandes, sábios, fecundos,

capazes de fazer deslizar à superfície das palavras

as mais impressionantes ruínas do Tempo,

deixar à vista de todos,

a ossatura que ficou 

do desmembramento do humano.

 

Eu sei que sim, porém…

que gume é este que nos fere a alma

à saída dessas páginas

tão autênticas, tão verdadeiras, tão reais?


Onde o excesso de revelação

as coisas que acordam estremunhadas 

para desordenar a ordem do instituído.

Onde o Imaginário?

Diz-me, Jorge Luis Borges

não é ele já a qualidade suprema 

do escritor.

 

Que gume é este?

Comparável apenas ao absurdo 

de um jardim sem rosas,

de um coração vedado à Poesia.

Uma espécie de extermínio do Sol,

a morte completa do feitiço da palavra.

 

II 

Cantam-se os labirintos bafientos da noite,

o deslumbrado orgulho de uns, poucos

[altos, fortes, bonitos]

na conquista do Outro,

sempre forçado a ajoelhar

perante a perfídia dos deuses de agora.


Lídia Borges