Sento-me silente e só
neste lugar que fora de muitas vozes
e tons.
Como se tivesse viajado para muito longe,
por longo tempo,
vacilo diante de cada forma, cada coloração,
cada sombra, cada ínfimo movimento
à minha volta.
Percebo que já nada do que vejo,
vejo com os olhos mesmos que ontem vira.
O ar que respiro está repleto
de sigilos, cerimónias, soturnidades.
Pergunto-me por que não ousam,
as folhas do choupo, ali em frente,
plagiar o canto das nascentes,
a exemplo de outros dias de vento.
Os cogumelos, discretos,
encostam-se ao muro;
exuberantes e encantadores,
os fetos de renda escurecem
como se adivinhassem o chumbo no céu
do meu coração.
E as flores?
Estas, na floreira, aqui ao lado,
lembram pequeníssimas bailarinas,
pés em pontas volteando.
A graça de seus demi plies
levam-me do irrespirável à fala,
desvio possível somente quando
de bem com a dor.
Lídia Borges
(Foto minha, hoje)
