sábado, 28 de setembro de 2024

E as flores?

 




Sento-me silente e só

neste lugar que fora de muitas vozes

e tons.

Como se tivesse viajado para muito longe,

por longo tempo,

vacilo diante de cada forma, cada coloração,

cada sombra, cada ínfimo movimento

à minha volta.

 

Percebo que já nada do que vejo,

vejo com os olhos mesmos que ontem vira.

O ar que respiro está repleto

de sigilos, cerimónias, soturnidades.

 

Pergunto-me por que não ousam,

as folhas do choupo, ali em frente,

plagiar o canto das nascentes,

a exemplo de outros dias de vento.

 

Os cogumelos, discretos,

encostam-se ao muro;

exuberantes e encantadores,

os fetos de renda escurecem

como se adivinhassem o chumbo no céu

do meu coração.

 

E as flores?

Estas, na floreira, aqui ao lado,

lembram pequeníssimas bailarinas,

pés em pontas volteando.


A graça de seus demi plies 

levam-me do irrespirável à fala, 

desvio possível somente quando 

de bem com a dor.



Lídia Borges

(Foto minha, hoje)