sábado, 9 de maio de 2026

Mistério

 


Há mistérios que nos habitam

por anos e anos.

Depois, de um momento para o outro, somem

por resolver.

É que o tempo tem o estranho costume

de, sem aviso prévio, mudar de sítio os mistérios

encalhados.

 

Embrenhada nos íngremes acessos

à explicação do inexplicável 

nem me apercebi que aquele mistério

perdera misteriosamente o lugar

na memória que dele 

a minha memória tinha.

 

São mistérios que nunca se desenrolam

até que o tempo trate de os desvanecer

numa qualquer lagoa ao luar.

Como quando,

sem que ninguém te chamasse, vieste

e partiste, ainda mal te deras a ver.

 

Débil alba incapaz de ser dia.


Lídia Borges

(pintura: Pinterest s/ ind. de autoria)