O outono é feito de coisas simples:
uma cesta de maçãs largada no chão,
tigelas de marmelada à janela,
o cheiro doce das compotas,
revoadas de pássaros apressados
e uma luz mansa a empurrar-nos
para dentro de um sentimento sem nome.
Esta manhã o canto das aves
foi abafado pelo som de uma harmónica
que lançou pela rua uma melodia afinada.
Vinha à mistura com um pregão:
"tesouras, guarda-sóis, facas e navalhas"
O guarda-soleiro voltou
saído de uma porta do antigamente
e de imediato os catraios correm
desafiando o vento no empedrado
longínquo do largo.
Ao centro, uma estátua de D. Pedro V
que do alto do pedestal vigia
as brincadeiras das crianças.
E os velhos, de olhos cansados,
procuram no jornal
com a urgência do sem-tempo
as notícias por acontecer
no restolho das viagens só sonhadas.
E eu, menina, ainda
a acreditar que o guarda-soleiro que passava
era o guardador do sol
e por sua culpa chegariam, em breve,
a chuva e o frio do inverno.
Esta manhã, o guarda-soleiro abriu a porta
por onde eu fugi para o antigamente, onde permaneci
pelo tempo exacto de um poema.
Lídia Borges (reeditado)
(Imagem: "Lugar do Real", pesquisa Google)
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