terça-feira, 3 de dezembro de 2024

"Enquanto o mar se agita"

 

Enquanto o mar se agita


Daniela Matos Leite

Poética Edições (2024)

 

Tenho em mãos um livro novo de poesia – Enquanto o mar se agita – de Daniela Matos Leite (segunda publicação da jovem autora de Barcelos) cuja leitura, como há muito não me acontecia, transportou-me a lugares abertos e amplos, onde uma serenidade cheia de inquietação nos acolhe e nos sugere percursos íntimos, situados entre a leveza do verso, a melancolia, a denúncia, o desejo. A paisagem natural e/ou humana alonga-se, páginas adentro, tomando formas diversas que privilegiam o labor estético, a autenticidade, a abordagem temática que parece elevar-se à altura da “aflição” dos homens: a vida, a morte, a saudade, a guerra, a paz, o amor, a distância, o medo… - o medo, esse segredo […] é de cambraia fina / dormência estagnada e fria. (p.41)

Estamos na presença de uma voz que, eco de muitas vozes, ressoa no espírito do leitor atento como bênção, chuva benfazeja, por um lado e, por outro lado, sineta estridente que incómoda. Um olhar contido que observa, vê e alerta sem, contudo, gritar.

O medo “dormência estagnada e fria” parece não temer, ele próprio, a dor de se erguer, quebrando o silêncio feito de febre e sede para proclamar, sem rodeios. – Rasgo-me, / faço e desfaço-me, / alinhavo e remendo-me. (p.47)

Será talvez a Poesia o remendo, a tábua de salvação que falta à alma, quando esta tem a capacidade de, sem se deixar corromper, deixar-se ferir, porém, neste caso, a Poesia é também astro, astrolábio e bússola, diante das tempestuosas vagas e descontrolados ventos que pairam sobre os mares agitados que assolam o mundo. - A palavra é uma aragem no pulso da noite. (p.75), - escreves ainda / noite e dia, até que dor se esvaneça. (p.44)

Um modo de ser/dizer rigoroso e sensível que parece querer enveredar por vias modelares, evitando o facilitismo e a verborreia supérflua que por aí vai vingando.

                                                                                                                                        Lídia Borges

(03/12/2024)