terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Pintura

 

Teu vulto ao fundo 

em minha última tela, desapareceu,

porém o teu nome não deixou de ser

a cintura de luz caída no rio 

onde pousa meu olhar, quando a tarde vem.

 

Que importa a tontura dos traços,

o tom alambre do ar,

a solidão que pende das estacas do cais?

Nem tudo se dilui na sombra da tarde

quando vens reparar em mim.

 

É verão outra vez nos teus olhos? Pode ser.

A mim sobram-me na paleta os tons cinza

do desapego.

Talvez queiras saber 

que pigmentos misteriosos uso 

para criar a claridade com que pinto os barcos 

ao luar.

 

Ainda que a lua,

onde a lua? - Haverás de perguntar.


Lídia Borges