I
Com que então
já não é tempo de cartas?
Que pena! Agora
que tenho a tinta,
A caneta e o
mata-borrão
Já não é tempo
de cartas, então?
O envelope imaculado,
Uma folha finíssima,
Da palavra apurado o estilo
E até um selo devoto a Camilo.
Que pena! Ademais,
É difícil obter a morada
Dos amigos reais,
Destinatários quiçá interessados.
E mal sabemos onde moram
Os amigos inventados.
II
Carta extraviada
Meu caro
senhor,
Soube de fonte insegura
(Como
inseguras, todas as fontes)
Que a poesia atravessou
pontes
E andou por aí
Fermosa e segura, qual Leonor,
A semear antigas trovas de amor
A ver se vingavam
nos solos
Estrumados de sangue e dor.
Contudo, meu
caro senhor,
Ouve-se agora um
certo rumor:
A Poesia está
de partida,
Sem dó nem palavra de despedida.
Ir-se, assim, mesmo sabendo ser ela
A própria vida, gémea da primavera.
Nesta missiva, perdida
Queria contar-lhe só isto, caro senhor.
Receba o meu abraço, o meu apreço,
E, se a Poesia consigo
se cruzar,
Seria grande
favor pedir-lhe para ficar.
Lídia Borges
(18/03/2025)
