Finalmente, o tempo mudou. Espero que a chuva e a descida das temperaturas venham “normalizar” os meus dias. Sei que o calor acumulado no corpo ao longo de meses ainda vai demorar a regressar aos níveis adequados. Mas, pelo menos hoje, “a sombra do vento” não está só pousada na minha mesinha de cabeceira em forma de livro, mas também lá fora e pela casa, já que abri todas as janelas à rebeldia suave do vento. Ler Zafón não era, para mim uma prioridade, longe disso, mas levada por uma amiga que acabara de ler A sombra do Vento, uma amiga para quem Carlos Ruiz Zafón (1964-2020) é dos melhores escritores do mundo - «dez milhões de exemplares vendidos». Bem, não propriamente por causa dos dez milhões que, convenhamos, é um número convincente, lá resolvi comprar o livro - dez milhões e um - agora.
Atribuí a minha difícil adesão ao texto ao excesso de calor, pois claro, à falta de concentração que, pois claro, tem a ver com a cirurgia complexa a que fui sujeita no início da primavera. Tem a ver com a falta de interesse por coisas que não me prendem, não me apaixonam, não são capazes de passar por cima do calor, das limitações físicas, nas primeiras vinte páginas. Bem sei que Barcelona (o que eu gosto de Antoni Gaudí…) é o palco dos acontecimentos, bem sei que visitar aquele "Cemitério de Livros Esquecidos" bem podia ser para mim uma esplêndida aventura. Mas… há as descrições longas demais, para um verão tão quente, há a velocidade da narrativa, lenta, lentíssima, as anacronias temporais, um vai e vem exagerado que confunde e cansa e, o pior de tudo, há aquele cheiro permanente a papel queimado, página após página. Que calor! Não suporto o cheiro a papel queimado, sobretudo se este provém de um livro ou de uma árvore.
Fui lendo à velocidade mínima, aqui e ali, um livro de poesia para ajudar a suportar “a sombra do vento” - Sobre o silêncio deste único jardim / despede-se a esperança que nos vem dos homens / e toda a gente diminui a voz / quando a sombra já desce nas cidades...(Ruy Belo) Não gosto de abandonar livros com a leitura a meio. Tanto mais que este, coitado, já tinha sido abandonado no tal Cemitério de Livros Esquecidos. Lá pela página 245, como quem desce num apeadeiro à espera de comboio de ligação, nova pausa na atribulada viagem com Zafón. Aconteceu-me pegar no Flores, de Afonso Cruz. Digamos que foi a morte definitiva de A Sombra do Vento. Lido em dois dias, ao serão, Flores tem tanto de despretensioso como de real, de tocável como de tocante. Aquelas pessoas que se movimentam entre páginas são as mesmas que eu conheço, as mesmas que se movimentam entre nós, a quem damos os bons dias, as boas noites. Tenho vontade de lhes falar, de desprezá-las ou de abraçá-las, conforme os momentos e as situações. Preciso que me falem, gosto de ouvi-las, gosto que me digam das suas verdades, das dúvidas e medos que as assolam. São de carne e osso, como eu, choram e riem como eu, sofrem e cantam como eu, são justas e imperfeitas como eu. Sei que as pedras e as flores que trazem no peito não lhes pertencem unicamente a elas, mas sim, a todos nós, seres feitos de fragilidade e coragem, de audácia e cobardia, de amor e desapego, de descrença e fé.
Como dizia, Flores foi
a morte definitiva de A Sombra do Vento. Começo a comungar daquela ideia
de que, a certa altura da vida, não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar o
tempo que temos, em livros e vidas que não nos apaixonam nas primeiras vinte páginas, nas
primeira vinte palavras, nos primeiros (vinte?) gestos, menos, por certo.
Arrumei, agora mesmo, o Flores
junto de outros livros do mesmo autor - Uma dor tão desigual, A condição
humana, o Livro do Ano, Para Onde Vão os Guarda-chuvas… Estão perto dos de José Saramago, António Lobo Antunes, Lídia Jorge, Agustina, Mário Claudio...
O A Sombra do Vento, com o marcador sensivelmente a meio, foi retirado da mesinha de cabeceira onde permanecia há tempo demais e colocado numa das prateleiras do corredor, onde a luz que passa, quando passa, é mais outonal. Para que não se sinta demasiado esquecido, coloquei-o junto de Haruki Murakami. Prémio de consolação?! Talvez, contudo, todos sabemos que quando os notáveis "Esquecidos" forem relembrados, Murakami será Nobel da Literatura com António Lobo Antunes, ex aequo.
Lídia Borges (outubro, 2025)
