terça-feira, 14 de outubro de 2025

Pensatempo

 




Revolvendo a terra ainda morna, fértil,
mãos desveladas
cingem o milagre das coisas inomináveis.
Sobem ao adro do encantamento
e proferem a palavra "oferta".
Comovidos, colhemos a generosidade dos solos
e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.
(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,
mas voz… essa, eu sei que vive, 
pois que a oiço, nitidamente.)

 

Cheira bem
e o outono ainda nem sequer me falou
de cogumelos.
O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,
sei lá,
da cantoria dos pássaros,
trebelhando, de ramo em ramo,
no meu pensatempo.

 

 

Lídia Borges (em Desarrumos, 2025)



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