A luz baça e lenta crestou o verde das
ervas,
apagou a graça pueril das flores
silvestres
estancou a velha inocência, ave desengonçada,
a pairar agora sobre o susto das cascatas
e o lamento do precipício.
Ah, mas por vezes o fulgor desta voz que me
interpela
vem atear luzernas
e a ternura no contorno das bocas é de novo presença.
Torna-se tangível o nome das coisas que temos por nossas,
uma musica fugaz, brevíssima
sinos que soam à proa do encantamento.
Livres de cinza, brancas de cal, as palavras,
transparência e voz da chuva que pousa,
leve como um pardal, nas traves do alpendre.
Brotam cantos líquidos, regatos pendentes,
gota a gota, letra a letra,
criada e recriada a linguagem
de um mundo possível-mente inventado
como se de todo impossível, outra,
a flor de aurora.
Lídia Borges
