quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Flor de aurora


 


A luz baça e lenta crestou o verde das ervas,

apagou a graça pueril das flores silvestres

estancou a velha inocência, ave desengonçada, 

a pairar agora sobre o susto das cascatas

e o lamento do precipício. 


Ah, mas por vezes o fulgor desta voz que me interpela

vem atear luzernas 

ternura no contorno das bocas é de novo presença. 

Torna-se tangível o nome das coisas que temos por nossas,

uma musica fugaz, brevíssima

sinos que soam à proa do encantamento.


Livres de cinza, brancas de cal, as palavras,

transparência e voz da chuva que pousa, 

leve como um pardal,  nas traves do alpendre. 

Brotam cantos líquidos, regatos pendentes, 

gota a gota, letra a letra, 

criada e recriada a linguagem 

de um mundo possível-mente inventado

como se de todo impossível, outra,

a flor de aurora. 


 

Lídia Borges 
(Pinterest s/ ind. autoria)