domingo, 26 de outubro de 2025

Domingo (II)

 


Já começou as caminhadas? – questiona o médico.

Ainda não… porque… porque…porque…

Já as desculpas se desfazem em poeira. Preguiça é o que é, preguiça e mais nada.

Levanto-me tarde demais. Deito-me tarde demais. Ah, mudou a hora (que chatice isto da mudança de hora) logo, levanto-me tarde, mas não demais. Tarde para aproveitar o sol da manhã que hoje brilha.

Já começou as caminhadas?  

Depois do almoço, voltarei aos pincéis. Tenho de vencer a letargia, o medo da dor que ainda não é, da dor que pode vir a ser. As telas brancas estão alinhadas na cave, à espera, há muito tempo. Preciso de pintar. Mas o quê? Sei lá. Deixarei que as cores se entendam ou desentendam, se atraiam, se repudiem, livremente. Deixarei que o improviso reine.  

A minha relação com a pintura é pacífica. Espero dela somente uns momentos de paz. Quero pintar um jarro de flores, uma paisagem, um pássaro. De mim, ela não espera nada, felizmente. Quando me chama, eu vou ou prometo ir, se a saúde, retrai. É assim que nos entendemos melhor. 

 

***

“Quero pintar o Futuro” – afirma, no ecrã, Amadeo Sousa-Cardoso (1878 – 1918) interpretado pelo ator Rafael Morais. O filme biográfico - Amadeo - realizado por Vicente Alves do Ó, estreou em 2023, mas ainda não tivera oportunidade de o ver. Aconteceu, hoje, por acaso, se é acaso ligar o televisor, coisa que raramente faço, precisamente no canal amc, precisamente no momento em que o filme começava.  A fotografia é maravilhosa, a casa solarenga onde o pintor nasceu em Manhufe Amarante, a praia de Espinho onde veraneava com a família, as termas de Caldas das Taipas, tudo tão Norte, tão próximo, tão familiar, ainda que distanciado no tempo (Portugal do início do século XX). 
E depois…  30 anos de uma vida fulgurante e intensa.

Aos 23, em Paris, faz a primeira exposição conjunta com Modigliani rodeado de amigos, entre os quais Picasso, Apollinaire, Brancusi, Derain, entre outros vanguardistas do primeiro modernismo. Regressado a Portugal, longe da Cidade das Luzes, tudo se torna mais difícil para o pintor português - “Sou expressionista, cubista, futurista…” O jornalista toma notas, olhando pelo canto do olho. Escreveria mais tarde: “isto não é abstracionismo é obstrucionismo”. Não, não era. Era só o Futuro. Amadeo, contra tudo e todos, tinha alcançado o Futuro antes de quase todos, e isso não era coisa que um qualquer pudesse entender. 

Morre prematuramente de gripe pneumónica, a 25 de outubro de 1918.

 ***

Dói-me a alma, agora, e as costas, e os olhos. Não, ainda não, hoje, o bailado dos pincéis na tela, posta no cavalete. Pouco a pouco, observo daqui, a mesma está a ser tomada por uma sombra precoce. Estão tão pequenos, os dias!


Lídia Borges (26/10/2025)