Já começou as caminhadas? –
questiona o médico.
Ainda não… porque… porque…porque…
Já as desculpas se desfazem
em poeira. Preguiça é o que é, preguiça e mais nada.
Levanto-me tarde demais. Deito-me tarde demais. Ah, mudou a hora (que chatice isto da mudança de hora) logo, levanto-me tarde, mas não demais. Tarde para aproveitar o sol da manhã que hoje brilha.
Já começou as caminhadas?
Depois do almoço, voltarei aos pincéis. Tenho de vencer a letargia, o medo da dor que ainda não é, da dor que pode vir a ser. As telas brancas estão alinhadas na cave, à espera, há muito
tempo. Preciso de pintar. Mas o quê? Sei lá. Deixarei que as cores se entendam
ou desentendam, se atraiam, se repudiem, livremente. Deixarei que o improviso
reine.
A minha relação com a pintura é pacífica. Espero dela somente uns momentos de paz. Quero pintar um jarro de flores, uma paisagem, um pássaro. De mim, ela não espera nada, felizmente. Quando me chama, eu vou ou prometo ir, se a saúde, retrai. É assim que nos entendemos melhor.
***
Aos 23, em Paris, faz a primeira exposição conjunta com Modigliani rodeado de amigos, entre os quais Picasso, Apollinaire, Brancusi, Derain, entre outros vanguardistas do primeiro modernismo. Regressado a Portugal, longe da Cidade das Luzes, tudo se torna mais difícil para o pintor português - “Sou expressionista, cubista, futurista…” O jornalista toma notas, olhando pelo canto do olho. Escreveria mais tarde: “isto não é abstracionismo é obstrucionismo”. Não, não era. Era só o Futuro. Amadeo, contra tudo e todos, tinha alcançado o Futuro antes de quase todos, e isso não era coisa que um qualquer pudesse entender.
Morre prematuramente de gripe pneumónica, a 25 de outubro de 1918.
Dói-me a alma, agora, e as costas, e os olhos. Não, ainda não, hoje, o bailado dos pincéis na tela, posta no cavalete. Pouco a pouco, observo daqui, a mesma está a ser tomada por uma sombra precoce. Estão tão pequenos, os dias!
Lídia Borges (26/10/2025)

