sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A obscuridade é uma parede

 


As palavras são portas

                          são pontes

                                   são túneis

                                           são estradas

                                                  são passagem.

 

 

Em redor delas a obscuridade é uma parede.

Desenhas nela uma porta que cede como se nuvem  

quando a empurras suavemente. Não tarda que chova.

Não. Não queres vê-las só em sua intimidade lexical

queres conhecer o bairro onde vivem 

queres saber-lhes os mistérios finitos e infinitos  

queres entrar nelas,

invadir todo o espaço depois da porta

                                         depois da ponte,

                                                  depois do túnel

          
                                                depois da estrada

                                                               depois da passagem.

 

Chegar finalmente.

Procurar a ternura que a casa guarda na música que não ouves. 

Ensurdeceste?

São muitas as vozes a cruzar teu semblante. Eu vejo-as.

Impossíveis submersas luzentes fugazes. 


O lugar delas na memória é onde a distância

deixou de ser um bicho manso aninhado no colo 

e passou a morder e a rasgar com suas garras de tigre.

 

As palavras

       sobrevivem

         sobem degrau a degrau

                               a escada para o poema.

 

Em redor dele há um bando de folhas caídas 

que é preciso apanhar.



 

Lídia Borges

(A meu irmão)




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