terça-feira, 18 de novembro de 2025

Manuel António Pina - "Palavras não"

 PALAVRAS NÃO

 

Palavras não me faltam (quem diria o quê?), 

faltas-me tu poesia cheia de truques. 

De modo que te amo em prosa, eis o 

lugar onde guardarei a vida e a morte.


 De que outra maneira poderei 

assim te percorrer até à perdição? 

Porque te perderei para sempre 

como o viajante perde o caminho de casa. 


E, tendo-te perdido, te perderei para sempre. 

Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.

Só me faltavas tu para me faltar tudo, 

as palavras e o silêncio, sobretudo este. 


Manuel António Pina in AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE (Assírio & Alvim, 1974)