quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Como se dormisse

 


 Hoje, uma sensação toda calafrio e desamparo

veio acordar-me, afirmando que o acordar

não é mais do que dormir de olhos abertos.

Uma névoa espessa caía do céu como um véu escuro

que desprezei ainda que os músculos da vontade e da desvontade, 

amarfanhados e frouxos, se negassem ao esforço da recusa.

 

Rejeitar o que é fácil - digo comigo, ouvindo Sophia.

Evitar o previsível, escorraçar o irrisório - acrescento

e ajeito os rebentos de Utopia que ontem apanhei

na berma das ambições para o meu país.


Deixo que espalhem seus eflúvios de Sol e Justiça

pelos meus gestos gelados. Deixo que, sorrindo,

pousem na pega da chávena de cevada quente,

que brinquem alegremente com as sementes do pão,

distribuindo-as como abraços.

Deixo que teçam com a Mentira, a Insolência e a Maldade

coisinhas, incrivelmente brilhantes, de deitar fora.

 

Tenho os olhos abertos

e vivo [in]consciente contra o tempo

como se, adormecida, sonhasse.


Lídia Borges