veio acordar-me,
afirmando que o acordar
não é mais do
que dormir de olhos abertos.
Uma névoa espessa
caía do céu como um véu escuro
que desprezei ainda que os músculos da vontade e da desvontade,
amarfanhados e frouxos, se negassem ao esforço da recusa.
Rejeitar o que
é fácil - digo comigo, ouvindo Sophia.
Evitar o
previsível, escorraçar o irrisório - acrescento
e ajeito os rebentos
de Utopia que ontem apanhei
na berma das ambições para o meu país.
Deixo que espalhem
seus eflúvios de Sol e Justiça
pelos meus gestos gelados. Deixo que, sorrindo,
pousem na pega da chávena de cevada quente,
que brinquem alegremente com as sementes do pão,
distribuindo-as como abraços.
Deixo que teçam com a Mentira, a Insolência e a Maldade
coisinhas, incrivelmente brilhantes, de deitar
fora.
Tenho os olhos
abertos
e vivo [in]consciente contra o tempo
como se, adormecida, sonhasse.
Lídia Borges
