O meu contributo para a Antologia de Natal, Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos (2025), Poética Edições.
Ao longe um anjo canta
Numa rua completamente às escuras
movem-se
estes versos
atravessando
o inverno.
Perdoa-me
por se moverem
tão
completamente às escuras
os
versos que se pretendiam luminosos.
Perdoa-me
o vento gélido que os agride
E o
cão naquela esquina a uivar
à lua
e ao abismo no mesmo tom.
Perdoa-me
este ar frio em forma de vapor
nas
bocas das pessoas que cruzam o poema
de
regresso a casa.
Abstração
e cinza, a casa.
A mãe,
o pai, os avós, as crianças,
o tumulto
dos corpos transidos
a embater
numa e noutra parede,
a crescer
para o negrume da noite
através
de aberturas que já foram portas e janelas.
O tumulto
a embater no solo
A embater
violentamente nos estômagos vazios
que a fome fustiga e fere.
Nos
olhos das crianças um quebranto cego
palmilha
os trilhos que o choro já desaprendeu.
Perdoa-me
trazer a estes versos uma noite vulgar,
sem
Estrela-Guia que cintile, a Oriente.
Do
lado oposto o silêncio é fraco escudo e mata.
Aquele
Menino pequeno e frágil, além
superou
com coragem, uma a uma, todas estas estrofes.
Que
faz uma criança descalça e meio despida, a tiritar
numa
rua em ruínas como esta?
Nos
escombros seus gestos repetidos, refulgem.
Tenta erguer
a estátua do Amor.
Uma
vez, duas vezes, três vezes, vezes sem conta.
É
mínimo o corpo, franzinos os braços, débeis os músculos.
E
tenta vezes sem conta, tenta.
Como é
possível que de entre tantos passantes,
tão
poucos se comovam?
Quando
estarão dispostos, os homens
a lavar
a lama, a lava, a dor, a enterrar as armas e os ódios?
A
vestirem a humanidade que lhes é pertença?
Aproximam-se
agora do Menino em esforço, alguns
tomados
de súbita consciência.
Ao
longe, muito ao longe um anjo canta.
