domingo, 7 de dezembro de 2025

Domingo (VIII)

 


O meu contributo para a Antologia de Natal, Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos (2025), Poética Edições.

Ao longe um anjo canta


Numa rua completamente às escuras

movem-se estes versos

atravessando o inverno.

Perdoa-me por se moverem

tão completamente às escuras

os versos que se pretendiam luminosos.


Perdoa-me o vento gélido que os agride

E o cão naquela esquina a uivar

à lua e ao abismo no mesmo tom.

 

Perdoa-me este ar frio em forma de vapor

nas bocas das pessoas que cruzam o poema

de regresso a casa.

Abstração e cinza, a casa.

A mãe, o pai, os avós, as crianças,

o tumulto dos corpos transidos

a embater numa e noutra parede,

a crescer para o negrume da noite

através de aberturas que já foram portas e janelas.

 

O tumulto a embater no solo                                                                                                                 

A embater violentamente nos estômagos vazios

que a fome fustiga e fere.

Nos olhos das crianças um quebranto cego

palmilha os trilhos que o choro já desaprendeu.

Perdoa-me trazer a estes versos uma noite vulgar,

sem Estrela-Guia que cintile, a Oriente.

Do lado oposto o silêncio é fraco escudo e mata.

  

Aquele Menino pequeno e frágil, além

superou com coragem, uma a uma, todas estas estrofes.

Que faz uma criança descalça e meio despida, a tiritar

numa rua em ruínas como esta?

Nos escombros seus gestos repetidos, refulgem.

 

Tenta erguer a estátua do Amor.

Uma vez, duas vezes, três vezes, vezes sem conta.

É mínimo o corpo, franzinos os braços, débeis os músculos.

E tenta vezes sem conta, tenta.

Como é possível que de entre tantos passantes,

tão poucos se comovam?

Quando estarão dispostos, os homens

a lavar a lama, a lava, a dor, a enterrar as armas e os ódios?

A vestirem a humanidade que lhes é pertença?

 

Aproximam-se agora do Menino em esforço, alguns

tomados de súbita consciência.

Ao longe, muito ao longe um anjo canta.

 

Lídia Borges, em Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos (2025), Poética Edições.