Depois da chuva, menos severa, a sala.
Atravessa-a um arroio de sol
que vai desaguar na mesa de mármore
acendendo cores nos objetos tocados.
Uma luz baça, enfraquecida de ser última,
silenciosa de ser só,
vem despedir-se em obediência ao calendário.
Grande invenção, os calendários!
Poentes de efeito cicatrizante,
enaltecidos e promissores nascentes…
Em breve, do mau Tempo, apenas destroços.
Novas auroras intentam subir à superfície das horas
onde outra, a "pomba da alba".
Que alva seja!
Ah! Se o Tempo fosse composto de instantes
como o espaço de pontos,
fácil seria livrá-lo de grilhões e algemas,
muni-lo de pontes seguras.
E seguir, renascido, confiante
como quem entra numa antiga e aguardada
balada de Amor.
Se o Tempo fosse!
Lídia Borges (reeditado)
