domingo, 28 de dezembro de 2025

Se o tempo fosse


 

Depois da chuva, menos severa, a sala.

Atravessa-a um arroio de sol

que vai desaguar na mesa de mármore

acendendo cores nos objetos tocados.

 

Uma luz baça, enfraquecida de ser última,

silenciosa de ser só,

vem despedir-se em obediência ao calendário.

 

Grande invenção, os calendários!

Poentes de efeito cicatrizante,

enaltecidos e promissores nascentes…

 

Em breve, do mau Tempo, apenas destroços.

Novas auroras intentam subir à superfície das horas

onde outra, a "pomba da alba".

Que alva seja!

 

Ah! Se o Tempo fosse composto de instantes

como o espaço de pontos,

fácil seria livrá-lo de grilhões e algemas,

muni-lo de pontes seguras.

E seguir, renascido, confiante

como quem entra numa antiga e aguardada

balada de Amor.

 

Se o Tempo fosse!


Lídia Borges (reeditado)