- A vida não pode ser só isto - dizia, com um certo desencanto na voz - Não pode ser só isto! Tinha sonhos. Sonhos incompatíveis com a fragilidade das mãos, a incapacidade de os perseguir, de lhes dar corpo. Tinha sonhos. Alimentava-se deles. Alimentava-os enquanto esperava, não sabendo bem o que esperava.
Esperar, esperar, esperar... - Soletrava devagar como se também as palavras se demorassem demais para o tempo que dispunha para elas, dia após dia, numa infindável comoção. Por vezes, o rosto enchia-se de um absoluto silêncio, deixando-lhe na pele gravado um tom pálido de abstração e ausência que me entristecia terrivelmente.
Nesses momentos, eu sabia que os seus sonhos eram como praças desertas comprimidas sob abóbada pesadas, sem rastro de estrelas.
- Não vieste. Procurei-te no meu sonho e não te encontrei - sussurrava. Não vieste.
Eu ouvia e cismava: aquela pessoa sempre tão afável, generosa e comprometida, tão lúcida, tão dadivosa, tão preocupada com os outros, ao ponto de se prejudicar a si próprio, caso uma situação mais bicuda viesse afligir algum familiar ou amigo; aquela pessoa tomado por uma bondade tão autêntica que, dir-se-ia lareira no alto do inverno; aquela pessoa que despertava admiração e respeito em quantos com ele conviviam; aquela pessoa sempre tão capaz de se dar, de se comover sem vergonha da lágrima incontrolada; aquela pessoa sempre pronta a arregaçar as mangas e construir para si e para os outros momentos amenos de partilha, de solidariedade, de amor, de bem-estar.
Aquela pessoa....agora tão só! - A vida não pode ser só isto. - Não vieste. Procurei-te no meu sonho e não te encontrei.
[...]
Depois, cansou-se da espera e partiu tão suavemente como viveu, como se a paz fosse a sua própria casa. Não sei para onde foi, mas sei que, aqui, onde viveu, entre nós, ficou uma marca, uma luz que é exemplo e exala serenidade, que é abrigo, ternura e abraço.
Enquanto o sonho durou, tu foste incrivelmente real.
Lídia Borges
