I
São os meus passos pela casa
os últimos a recolher-se.
O gato questiona-me ainda
sobre a quantidade de comida
que tem no prato.
Teme que não lhe chegue
para a solidão da noite.
Retifico os secos, renovo-lhe a água.
Desde que envelheceu
nasceu-lhe uma incontrolável
tendência para o protesto.
Verifico as portas
Fecho o livro. Ficam pendentes
os labirínticos diálogos
de kafka, Borges e dos dois
com Pessoa.
Apago todas as luzes.
Reparo que no escuro
torna-se mais visível
a linha curva de um sorriso
entre a ficção e a realidade.
Lídia Borges
