terça-feira, 2 de junho de 2026

Do verbo "preferir"



Prefiro o que hospeda o silêncio

ao que arremessa a peçonha da voz

e esconde o gesto.

Prefiro o tinir das camélias sob a chuva

ao abraço do amigo simulado.

 

Prefiro seres que não falam.

Palavras há como línguas bifurcadas,

facas de dois gumes

gumes de mil facas,

estremecimento, berro, trovão,

reinvenção do medo,

pregão:

Compre quem quer comprar

Coma quem quer comer

repudie quem pode repudiar.

Escolha, pode sempre escolher.

 

Estamos na idade do ferro da palavra.

Martele, martele, martele

o ferro quente.


Lídia Borges