terça-feira, 16 de junho de 2026

EPICÉDIO


 

Que escreva um elogio último

Para homenagear, na despedida, alguém

Não muito próximo, não muito distante

Precisamente a meio caminho

Entre o sim e o não.

 

Um texto destes não pode ser escrito

Com uma caneta bic tradicional

Nem com a caneta de tinta permanente

Que o pai venerava.

 

Que dilema! Escrever um elogio fúnebre

Sem ter à mão um sorriso aberto

Um olhar, ainda que vago, um movimento súbito

Da memória que ria ou chore.

 

Sinto-me a IA dos textos fúnebres:

Usar lamentos que rimam com pouco

E dons únicos, comuns a todos os que acabam de morrer.

Como se a Poesia desconhecesse as virtudes pessoais  

Que todos ou quase todos os vivos guardam em si. 

 

Que escreva um elogio póstumo

 

A lápis, no topo da página grafo a negrito:

Código de Conduta – Art.º n.º 1

Não arremessar, sem direção precisa,

Palavras, pétalas ou pedras

A menos que seja

Em (i)legítima defesa.

 

Lídia Borges

(imagem Google)