Que escreva um elogio último
Para homenagear, na despedida, alguém
Não muito
próximo, não muito distante
Precisamente a
meio caminho
Entre o sim e o
não.
Um texto destes
não pode ser escrito
Com uma caneta bic tradicional
Nem com a
caneta de tinta permanente
Que o pai
venerava.
Que dilema! Escrever um elogio fúnebre
Sem ter à mão
um sorriso aberto
Um olhar, ainda que vago, um movimento súbito
Da memória que ria ou chore.
Sinto-me a IA dos
textos fúnebres:
Usar lamentos que rimam com pouco
E dons únicos, comuns a todos os que acabam de morrer.
Como se a Poesia desconhecesse as virtudes pessoais
Que todos ou quase todos os vivos guardam em si.
Que escreva um
elogio póstumo
A lápis, no topo da página grafo a negrito:
Código de Conduta – Art.º n.º 1
Não arremessar, sem direção precisa,
Palavras, pétalas ou pedras
A menos que
seja
Em (i)legítima
defesa.
Lídia Borges
(imagem Google)
