sábado, 29 de agosto de 2026

Desconcerto para violino e flauta

 


Um raminho de sol preso ao canto da janela

Uma folha irradiando o verde

Uma abelha, o mel, a flor

Altos relevos, ponto cheio. Cheiro, cor.

 

Toalha de linho bordada com fios ténuos de luz

E pássaros em trovas antigas

Entoadas a ponto de cruz.

 

A manhã, um desejo em flor, um violino, uma flauta

Assim

Como se nas pétalas de um prelúdio

Não se pudesse respirar  um assopro de fim.

 

Como se não crescessem

As portas fechadas a meio dos corredores

Como se dos muros não sobrasse a sombra

Ressurgida de velhos e podres bolores.

 

Um violino, um desejo, uma flauta 

E a aragem de abril a esvoaçar

Nas linhas de consertar disforias de uma pauta.


Lídia Borges (reeditado)

imagem: Eduardo Lima