domingo, 23 de agosto de 2026

Que os deuses se danem


 

I

Iguais em demasia

para tanta diferença em nós.

Andámos depressa demais.

Corremos tanto

que acabámos por crescer

além das idades

onde o finito entoa afinado

o canto do cisne.

 

II

 

Proponho-te que deixemos de ouvir.

Ouves? Deixemos de ouvir o som do transitório.

Proponho-te casamento, outra vez. Aceitas?

Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.

Proponho-te um casamento outro 

além do dever,

além de preceitos religiosos ou sociais,

além da paixão ardente,

da beleza (é fácil amar o que é belo),

dos dias de desejo, de entrega, de feitiço

de sonho, de primavera.

 

Proponho-te que espicacemos o destino,

(que se danem os deuses)

que ames as minhas cicatrizes,

as sombras dos dias tristes no meu rosto

e a água de todas as lágrimas, em meus olhos.

Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar

tonta de tanta perfeição criada em ti por minhas mãos.

Amemo-nos como se nunca tivéssemos

sido escravos da Fantasia e da Ilusão.

 

Proponho-nos acarinhar a certeza de sermos ainda.

Proponho-nos rir de nossos trôpegos sentires

de nossos suaves pensamentos,

de nossos passos rasos,

de nossos gestos de ternura eterna.

 

E se vierem falar-nos de loucura,

diremos que decidimos amarmo-nos 

sem fim.

 

Que os deuses se danem!


Lídia Borges (23/08/2026)