sábado, 10 de outubro de 2026

O _ PAÍS _ INVIS ÍV L

 


              Assim como não vou já a lugares que gostaria de ir, também não leio já tudo o que gostaria de ler. Por indisponibilidade física/anímica, por incompetência várias, por frouxos quereres e idênticas determinações. Quando leio, necessito, agora mais que nunca, de estar atenta aos níveis da atenção que vou dispensando às páginas em mãos. Pode acontecer (e isto é relativamente novo) que o processo de leitura possa ficar seriamente comprometido, logo após meia dúzia de páginas, por inexplicável défice no contributo do leitor. Do pé para a mão, começam os parágrafos a esfumar-se lentamente, as palavras a arrastarem-se como lesmas ao sol, não podendo acompanhar o movimento dos olhos que prosseguem descuidados texto adentro, deixando para trás assopros, hálitos, sonoridades, colorações, exaltações, eflúvios dispersos. Quando me apercebo, nada do que li foi realmente lido, nada do que ali é escrito rompe a barreira da distância, do signo, do entendimento, da fruição. E de nada adianta recuar nas páginas, pedir desculpa ao autor, abrir mais os olhos, reler. Não adianta! A fratura entre mim e aquele texto não prevê cicatrização. E assim, me revejo e aceito outra e pior leitora. Talvez devesse dizer - leitora menos benevolente.

   


 Ainda assim, por vezes, acabo por deixar à solta a minha atenção, pois ela parece, diante de certos livros ter recuperado em absoluto, toda a proficiência e jubilação. Pega-me na mão e leva-me pelo texto fora sem pedir nada porque o que dou voluntariamente cumpre, em larga medida, os requisitos de uma leitura profícua.  Aconteceu recentemente com um livro recôndito que fui desencantar no fundo de estante pouco visitada. - Que é isto? – Pergunto a mim própria? –  É uma Antologia de Contos que tem por título O País invisível. Parte do mesmo desaparece na aba, criando um efeito de surpresa e curiosidade. É um elemento estético, extratextual que parece querer ser apenas um preciosismo gráfico, mas que acaba por se constituir um elemento interessante já que sugere um paralelo com os espaços diegéticos das narrativas aqui reunidas. Trata-se de uma publicação do CMC (Centro Mário Cláudio), de 2016 e colige contos de dez autores portugueses, tendo como pano de fundo o interior do país, na sua grande maioria, e o modo como essa interioridade, descurada pelos poderes políticos ao longo de décadas, leva à desertificação e atua no seio das comunidades rurais, emagrecendo-as, esvaziando-as, isolando-as. Somos confrontados com o telurismo das paisagens agrestes e silenciosas, a pobreza, a solidão, a velhice, o desamparo de homens e bichos, enfim, questões de um passado que não passa e parece querer, no futuro, retratar-se transformando os lugares d’O País Invisível em aldeias turísticas: pedras somente e terra estéril, cortes e redis desocupados, campos abandonados. As vivências das suas gentes, sua identidade, seus costumes e tradições, seus saberes ancestrais, seus mistérios, suas crenças e mitos, suas vidas, seus sentimentos mais puros ou impuros, agora, só alcançáveis em documentos/ artefatos museológicos, na memória de alguns poucos resistentes ou em páginas como estas que aqui tenho. Páginas que não permitem ao leitor devaneios colaterais que comprometam levianamente o ato de ler.


Lídia Borges (outubro, 2026)