domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ruas...

       Eu sou eu mesmo a minha pátria.
                    (Jorge de Sena)

Em todas as cidades, por esse mundo fora haverá, por certo, ruas como esta.
A minha rua é igual a muitas outras ruas...
As casas não são altas e todas têm alguns degraus a trepar para a entrada. É uma rua cheia de sossegos. A esta hora os pequenos jardins estão submersos no silêncio. Na folhagem, onde a há, os últimos raios de sol pousam  luminosidades sempre novas.  Algumas camélias, jarros, azálias e   magnólias são o suficiente para perfumar um poema de inverno, quase sempre expurgado de euforias sinestésicas noutras ruas, noutras cidades.
É acolhedora a minha rua, pelo menos o bastante para que agora, debruçada sobre ela, eu me atreva a senti-la como substância branca, única, e sem mácula. Mas é fugaz o sentimento porque logo me faltam  risos de crianças, rolando sobre a relva na perseguição do gato ou da bola, porque me faltam rostos e vozes, trinados tranquilos de domingo que o frio acoberta, que o tempo devora...
Em todas as cidades, por esse mundo fora haverá, por certo, ruas como esta, mas nenhuma me dará o húmus, a solidez das raízes, dos ramos que levam ao coração a seiva autêntica de um inequívoco “ser daqui".

13 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Nós somos
o lugar onde estamos
se dele gostamos
e aprendemos a amar

Falamos de raízes, das assumidas...

Val Cruz disse...

Ah, não coisa melhor que a Terra da gente! Pode-se andar por vários lugares... mas sempre a nossa pátria faz o coração bater mais forte.

Beijos!

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga na nossa rua ganhamos raízes, vivemos e criamos a sensação de pertencermos realmente ali.
Beijinhos
Maria

P. P. disse...

maravilhoso!

Jardineiro do Rei disse...

A nossa rua é um pouco de nós.

É o nosso chão, é a nossa calçada...
É a memória das nossas brincadeiras desvairadas de crianças. É aquela árvore que vimos ser plantada e que nos acompanhou quando crescemos...
É um pouco de nós, sim...

um abraço

joão

Daniel C.da Silva disse...

Olá :)

Gostei da fotografia, gostei da placidez do texto. Quase chega aqui o perfume das azálias :) Quase se ouve o silêncio da rua... Na minha também há silêncio pela manhã e pela tarde, mas tal como aí, logo se enche de barulhos de pessoas de quando em vez...

Foi muito prazeiroso ler isto :)

Um beijinho amigo

Celso Mendes disse...

Lindo texto, Lidia. Este sentimento de raiz, de se valorizar o belo com que se conviveu e que faz parte impressões de toda uma vida é muito precioso. Pobre dos que não o tem.

Beijo e uma ótima semana.

Graça Sampaio disse...

A nossa rua, a nossa casa, o nosso "cocoon". E quem não tem nada disso? E cada vez mais há quem esteja nessa triste situação. Dramático e assustador.

Beijinho.

alma disse...

são as certezas das nossas ruas que nos fazem permanecer.

bj

Anónimo disse...

A minha rua continua a ser aquela onde cresci. Durante a minha vida de andarilho, nunca mais voltei a sentir essa sensação "da minha rua". Será porque as minhas raízes ainda lá estão e cada vez que entro na minha velha casa onde nasci sinto uma estranha sensação de rejuvenescimento?

Mª João C.Martins disse...

Na nossa rua, na contemplação da nossa rua, em qualquer momento de um qualquer tempo, sabemos sempre a cor do ar que dela respiramos.

Os nossos lugares são afectos que nos sustêm.

Um beijo

AC disse...

Sem a conhecer, gosto dessa rua, embora lhe falte o riso das crianças...

Bj

Francisco Coimbra disse...

Fazendo uma pausa na leitura, escrevi:

Há de certeza alguém que escreve o que eu escrevo, agora que escrevo, o que escrevo. É esse alguém que, mesmo desconhecido, conhece as palavras que nem sei saber. São elas, da língua, o sabor a saborear por quem as tenha.
Lidas, estas linhas, espero sejam do agrado de quem as agarrar… como se fossem as pombinhas da Catrina!
Distraído, deixo-me distraído ficar, não seriam da Catarina?
Relês e encontras o que ainda não tinhas lido, se relês melhor do que leras antes. As leiras onde as ideias se semeiam, durante a leitura; pensamentos que mudam (com) os momentos, nada a estranhaR!
R

Gostei do que li, parabéns!