segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

De "Garças"


Chegas,
barco deslizante sobre a lisura azul
a cobrir um pensamento demasiado matinal.
Desta imagem, salvo a água já aqui
para não morrer de sede mais além.
Súbito, o medo de adoecer, outra vez
do neobucolismo crónico que me afeta.
Sacudo das mãos os juncos esguios
os salgueiros plangentes, os adjetivos faustosos.
Às garças que se aproximam, garbosas
xô… xô…xô…
até que em nuvens de penas se desfaçam.

O estrondo de uma cadeira que cai
estilhaça fatalmente o silêncio,
míssil riscando a fogo o céu.
Não chegas, afinal. O poema é convulsão e ruína,
um choro cortante de crianças nuas, ao longe,
e esta febre cava incapaz de afrontar a noite...

as garças… as garças… as garças!