Desliza nas mãos, suavemente, deixa-se folhear devagar para que se não perca nada do que tem para
oferecer, que nada é de perder nesta Quaderna, revista de
literatura y arte, da responsabilidade de Vergílio Alberto Vieira, de quem nos
habituámos a esperar a excelência, o rigor, o sentido estético mais apurado,
quer enquanto escritor/poeta/dramaturgo, quer como redactor, organizador,
ensaísta, cronista…
Ao que parece, Quaderna terá
quatro números, (não por acaso, quatro, como se verá) e, enquanto presta tributo
ao poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto da conhecida geração de 45,
(terceira geração modernista) de que fazem parte também Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Lygia
Fagundes Telles, entre outros que
privilegiaram a inovação
na estética e nas formas de expressão da literatura, pretende trazer, ao
de cima, uma certa face da Arte que o tempo parece querer desvirtuar.
A aproximação desta Quaderna de agora, ao livro de João Cabral de Melo Neto, Quaderna/Colecção de Poesia e Verdade(1960), faz-se através do título, obviamente, mas sobretudo por via de olhares e sentires similares que se cruzam no universo do significado do simbolismo, como facilmente se observa nos excertos do editorial que aqui transcrevo:
«Nascida sob a égide dos significados
simbólicos do quatro, fundamento primeiro das funções elementares da
consciência humana: pensamento, intuição, sentimento e sensação…»
[…]
«Sem outra finalidade que a
de ser publicação do seu tempo, Quaderna propõe-se
cumprir o ensinamento de João Cabral de Melo Neto, o poeta a quem se deve o
título que dá fundo & forma ao caminho aqui iniciado, quando vaticinou que
a(s) arte(s) são a procura da sétima face do dado, aquela espécie de quatro
sóis, quatro eras que, na tradição Maia-Quiché, fazem da tétrade a
chave do simbolismo numérico pitagórico, que responde pela ordem do mundo e,
por que não?, pela ascensão do homem ao estatuto de homem definitivo.»
Do número um, que tenho em mãos, destaco
a entrevista do poeta de Quaderna e Educação pela
Pedra que não acreditava na inspiração, entrevista dada a
Joaquim António Emídio, "quatro dias antes da sua morte, terça feira, dia
5, no amplo salão da sua casa na Praia do Flamengo". João Cabral de
Melo Neto viria a falecer a 9 de Outubro de 1999.
O leitor desta belíssima revista que se
proponha viajar ao sabor das palavras nela impressas, tem à sua disposição mais
de dez dezenas de páginas, cujos temas vão da Poesia às Artes Plásticas
passando pela Narrativa, Viagem, Ensaio, Reportagem... (aqui realço um
interessante poema, “Auto-Retrato”, dedicado a Alexandre O´Neil, por Antônio
Torres, com a sui generis pré-inscrição: (Em homenagem a
Alexandre O’Neill, “um poeta bestial, pá!, neto de irlandês e parente de Santo
António”).
No espaço reservado à
Dramaturgia podemos ler, O guardião do túmulo de Kafka ,(versão
portuguesa da peça por Vergílio Alberto Vieira.) Em Artes Plásticas surge-nos
Jorge Pinheiro, (que cede a pintura da capa), numa muito profícua e
interessante entrevista, dada a Antonino Resende Jorge, encimada pela
afirmação - Um intelecto que não envelhece.
A Quaderna está aí, a reafirmar das Artes, o que elas têm
de mais belo e mais verdadeiro.

