quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

"Quaderna / literatura y arte"





















       
   
   Desliza nas mãos, suavemente, deixa-se folhear devagar para que se não perca nada do que tem para oferecer, que nada é de perder nesta Quaderna, revista de literatura y arte, da responsabilidade de Vergílio Alberto Vieira, de quem nos habituámos a esperar a excelência, o rigor, o sentido estético mais apurado, quer enquanto escritor/poeta/dramaturgo, quer como redactor, organizador, ensaísta, cronista…
 Ao que parece, Quaderna terá quatro números,  (não por acaso, quatro, como se verá) e, enquanto  presta tributo ao poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto da conhecida geração de 45, (terceira geração modernista) de que fazem parte também Guimarães Rosa, Ariano Suassuna,  Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, entre outros que privilegiaram a inovação na estética e nas formas de expressão da literatura, pretende trazer, ao de cima, uma certa face da Arte que o tempo parece querer desvirtuar.

    A aproximação desta Quaderna de agora, ao livro de João Cabral de Melo Neto, Quaderna/Colecção de Poesia e Verdade
(1960), faz-se através do título, obviamente, mas sobretudo por via de olhares e sentires similares que se cruzam no universo do significado  do  simbolismo, como facilmente se observa nos excertos do editorial que aqui transcrevo:
«Nascida sob a égide dos significados simbólicos do quatro, fundamento primeiro das funções elementares da consciência humana: pensamento, intuição, sentimento e sensação…»
[…]
«Sem outra finalidade que a de  ser publicação do seu tempo, Quaderna propõe-se cumprir o ensinamento de João Cabral de Melo Neto, o poeta a quem se deve o título que dá fundo & forma ao caminho aqui iniciado, quando vaticinou que a(s) arte(s) são a procura da sétima face do dado, aquela espécie de quatro sóis, quatro eras que, na tradição Maia-Quiché, fazem da tétrade a chave do simbolismo numérico pitagórico, que responde pela ordem do mundo e, por que não?, pela ascensão do homem ao estatuto de homem definitivo.»

Do número um, que tenho em mãos, destaco a entrevista do poeta de Quaderna Educação pela Pedra que não acreditava na inspiração, entrevista dada a Joaquim António Emídio, "quatro dias antes da sua morte, terça feira, dia 5, no amplo salão da sua casa na Praia do Flamengo". João Cabral de Melo Neto viria a falecer a 9 de Outubro de 1999.
O leitor desta belíssima revista que se proponha viajar ao sabor das palavras nela impressas, tem à sua disposição mais de dez dezenas de páginas, cujos temas vão da Poesia às Artes Plásticas passando pela Narrativa, Viagem, Ensaio, Reportagem... (aqui realço um interessante poema, “Auto-Retrato”, dedicado a Alexandre O´Neil, por Antônio Torres, com a sui generis pré-inscrição: (Em homenagem a Alexandre O’Neill, “um poeta bestial, pá!, neto de irlandês e parente de Santo António”).
  No espaço reservado à Dramaturgia podemos ler, O guardião do túmulo de Kafka ,(versão portuguesa da peça por Vergílio Alberto Vieira.) Em Artes Plásticas surge-nos Jorge Pinheiro, (que cede a pintura da capa), numa muito profícua e interessante entrevista, dada a Antonino Resende Jorge, encimada pela afirmação - Um intelecto que não envelhece.

Quaderna está aí, a reafirmar das Artes, o que elas têm de mais belo e mais verdadeiro.