domingo, 13 de janeiro de 2019

Tema (2)



O amor não é o meu tema,
definitivamente.
Que não o amor
este nó na garganta do mundo,
apertado,
como se abraço infecundo,
indesejado
Meu tema é o som cavo
do canto da cotovia
no curto espaço de um verso
que a si próprio se cumpria.


A rua é o meu tema.
A imperfeita harmonia
que se abeira dos canteiros,
do silêncio dos pinheiros,
das tulipas e das frésias
trespassadas de janeiros.

Por cada grão de alegria
que ao canto vai faltando,
sem o rubor das cerejas,
o alarido das maçãs,
e a doce melancolia,
ao sol de outras manhãs,
esmorece a cotovia.

Meu tema é este torpor
feito de neve e de lonjura
que vai enchendo os dias
de [des]humanas mãos vazias.
Mãos de ferro, mãos de nada,
ausentes da luz, do calor...
mãos que ferem e que lutam,
férteis que baste na guerra,

áridas, só no amor.



(imagem: Google s/ ind, autoria)