Nas
crianças eu acredito. É por isso que escrevo para elas. Para elas e para mim. Elas
sabem andar com à-vontade por dentro dos livros que dizem alguma coisa, livros que acrescentem mundos e significados ao mundo. Se o
que escrevo ou vejo escrito para crianças não me diverte, não me emociona,
não me comove porque irá divertir, emocionar ou comover uma criança. A criança não é um recetor
passivo do texto literário, ela tem competência para o transformar, para o tornar seu, de acordo com o imaginário, se mais
não for, dadas as condicionantes inerentes à idade, no que diz respeito aos códigos linguísticos e ao desenvolvimento cognitivo, psicológico, social. A criança não compreende tudo o que o
livro lhe diz? E nós adultos compreenderemos sempre tudo o que um livro tem
para nos dizer?
Daqueles livros cujo objetivo se restringe a ensinar,
eu desconfio. São os chamados manuais escolares ou outros que pretensamente literários mais não fazem do que reforçar conteúdos didáticos. Muitas vezes, hipervalorizados
por pais, professores e sociedade em geral, funcionam como obstáculos à descoberta do prazer de ler, entraves ao processo de formação de leitores. Habituados a “ver” a leitura como matéria
de estudo para "despejar" nos testes ou simples veículos de aprendizagem, a literatura deixa de poder exercer a sua sedução natural e necessária sobre as crianças/jovens que a vão rejeitando e o livro, quando comparado com as novas tecnologias a que todos têm acesso (mais ou menos intensamente), deixa de ter hipóteses de resposta nesta competição desleal. Não queira a pedagogia intrometer-se
no espaço reservado à literatura só porque o texto literário (criação escrita que
privilegia a estética… e a ética, digo eu) tem a capacidade de ser didático sem deixar de ser fruição. A uma criança incute-se o dever
de estudar. Conceda-se-lhe também o direito
a ler e a sonhar, a maravilhar-se com a poesia, o fantástico, a aventura, o
encantamento, responsáveis, [segundo teorizações dos entendidos na área],
pelo desenvolvimento de competências cognitivas, afetivas, de sociabilidade, linguísticas,
etc…etc… que ajudam a criança/jovem a compreender melhor e mais depressa a sua
relação com os outros, com o mundo e consigo mesmo. "Ler é saber".
Lídia Borges
(Imagem: ilustração de Silvia Mota Lopes a partir de um poema
incluído no livro de minha autoria - Coisas Boas de Contar)