terça-feira, 23 de abril de 2019

Nas crianças eu acredito



Nas crianças eu acredito. É por isso que escrevo para elas. Para elas e para mim. Elas sabem andar com à-vontade por dentro dos livros que dizem alguma coisa, livros que acrescentem mundos e significados ao mundo. Se o que escrevo ou vejo  escrito para crianças não me diverte, não me emociona, não me comove porque irá divertir, emocionar ou comover uma criança. A criança não é um recetor passivo do texto literário, ela tem competência para o transformar, para o tornar seu, de acordo com o imaginário, se mais não for, dadas as condicionantes inerentes à idade, no que diz respeito aos códigos linguísticos e ao desenvolvimento cognitivo, psicológico, social. A criança  não compreende tudo o que o livro lhe diz? E nós adultos compreenderemos sempre tudo o que um livro tem para nos dizer?
 Daqueles livros cujo objetivo se restringe a ensinar, eu desconfio. São os chamados manuais escolares ou outros que pretensamente literários mais não fazem do que reforçar conteúdos didáticos. Muitas vezes, hipervalorizados por pais, professores e sociedade em geral, funcionam como obstáculos à descoberta do prazer de ler, entraves ao processo de formação de leitores. Habituados a “ver” a leitura como matéria de estudo para "despejar" nos testes ou simples veículos de aprendizagem, a literatura deixa de poder exercer a sua sedução natural e necessária sobre as crianças/jovens que a vão rejeitando e o livro, quando comparado com as novas tecnologias a que todos têm acesso (mais ou menos intensamente), deixa de ter hipóteses de resposta nesta competição desleal. Não queira a pedagogia intrometer-se no espaço reservado à literatura só porque o texto literário (criação escrita que privilegia a estética… e a ética, digo eu) tem a capacidade de ser  didático sem deixar de ser fruição. A uma criança incute-se o dever de estudar. Conceda-se-lhe também o direito a ler e a sonhar, a maravilhar-se com a poesia, o fantástico, a aventura, o encantamento, responsáveis, [segundo teorizações dos entendidos na área], pelo desenvolvimento de competências cognitivas, afetivas, de sociabilidade, linguísticas, etc…etc… que ajudam a criança/jovem a compreender melhor e mais depressa a sua relação com os outros, com o mundo e consigo mesmo. "Ler é saber".

Lídia Borges
(Imagem: ilustração de Silvia Mota Lopes a partir de um poema 
 incluído no livro de minha autoria - Coisas Boas de Contar)