quinta-feira, 11 de julho de 2019

Poeta (no feminino)




Para as mulheres escritoras/poetas que nos precederam, desde Safo, escrever, expressar a sua individualidade, era um ato de coragem tido como uma atitude de confronto, de desafio, de provocação e até mesmo de deslealdade para com o meio de pertença. As sociedades em geral viam na criação artística/literária das mulheres, uma exposição pública que as vulgarizava e desprestigiava. Eram normalmente aconselhadas a permanecer silenciosas, modestas, obedientes e castas. Esta forma de ver/vigiar/agir foi sustentada e reforçada, ao longo dos tempos por escritores/críticos (homens) que chamavam a si o ímpeto da criação artística, como uma propriedade ou capacidade de género. Aí reside talvez a explicação de não haver hoje uma história da poesia feminina, ou melhor, da poesia feita por mulheres, através dos tempos, digna desse nome. Uma outra razão que pode justificar o “apagão” residirá no facto de terem sido rejeitados cânones alternativos, favoráveis às mulheres, durante séculos consecutivos. Sabe-se que muitas daquelas que primeiramente tentaram alargar a sua poesia para além da esfera do privado, foram ridicularizadas, enxovalhadas e recambiadas para dentro dos limites da pesada virtude da domesticidade, quando não mandadas para conventos ou manicómios, sendo-lhes desta forma vedado o acesso a uma identidade criadora própria. A exceção à regra verifica-se em camadas da sociedade privilegiadas, onde o fazer poético se tolerava às mulheres. Foi necessário, às aspirantes a poetas* libertarem-se da passividade dos papeis que lhes eram reservavam e do clima hostil em que se movimentavam. E não terá sido, não foi, por certo, um percurso fácil. Virgínia Woolf chega a opinar: se uma hipotética irmã de Shakespeare tivesse nascido com o mesmo talento deste, teria sido rapidamente levada à loucura – ou mesmo à própria morte – sem que tivesse conseguido escrever uma só linha.  

Na minha opinião, este (e outros) caminhos não estão totalmente calcorreados pelas mulheres, embora se pense o contrário, o que não deixa de ser perigoso. Estou ciente que demorará ainda,  até que as mentalidades machistas dos novos guardadores da moral, da “decência”, dos adeptos incorrigíveis da submissão da mulher, abram os olhos à realidade e despertem para outras mais arejadas paisagens. Se não o fizerem, azar o seu. É tarde de mais para que alguma mulher que se preze, baixe os braços e renegue a sua arte, a sua escrita, a sua imaginação e poder criativo, em consequência de tentativas de descredibilização, depreciação e até humilhação que vão persistindo, à luz do século XXI, com o intuito de culpar a mulher por ser MULHER. Já nenhuma destas se contenta em ser a musa, a deusa, a louca, a personagem mitológica, o “Outro” que o homem pretende dominar e transcender com a sua "caneta masculina".

(excluo o termo "poetisa", propositadamente, recusando o sentido depreciativo que, em certos meios culturais e literários, foi sendo associado à palavra, com o objetivo de minorar a arte poética produzida por mulheres.)

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Os meus poemas foram e são os meus maiores pecados. Também eu, (desde que, nos primórdios dos anos setenta, adolescente ainda, comecei a escrever e a esconder poemas, receosa das condenações e dos juízos impregnados de ideias salazarentas, com cheiro a mofo da época), senti uma pressão forte e contínua para asfixiar a minha apetência para a escrita, desde logo a partir da família, com  exceções (decisivas) de minha avó paterna e de meu pai, pessoas que, no entanto, perdi muito cedo. Valeu-me, depois, o incentivo de alguns (bons) professores, as notas escolares, as “redacções”, primeiro, (mais tarde, relatórios, textos de opinião, actas, poemas …) feitas a pedido de amigos, mais ou menos atormentados com a necessidade de apresentar  textos, neste ou naquele contexto, trabalhos esses que lhes mereciam, (a eles), alguns elogios que eu tomava secretamente para mim. Foi a única coisa que "roubei" até hoje. Elogios. (que me pertenciam.) 

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No campo das mentalidades, sabemos que os avanços se dão à velocidade do caracol, mas considero hoje consolidado o lugar da Poesia, dentro e fora de um Feminino consciente que procura honrar e preservar o espaço próprio, conquistado a pulso com as únicas armas eficazes neste duro combate: Educação, Conhecimento, Cultura.


Lídia Borges