Para as mulheres escritoras/poetas que
nos precederam, desde Safo, escrever, expressar a sua individualidade, era um
ato de coragem tido como uma atitude de confronto, de desafio, de provocação e
até mesmo de deslealdade para com o meio de pertença. As sociedades em geral
viam na criação artística/literária das mulheres, uma exposição pública que as
vulgarizava e desprestigiava. Eram normalmente aconselhadas a permanecer silenciosas, modestas, obedientes e castas. Esta forma de ver/vigiar/agir foi
sustentada e reforçada, ao longo dos tempos por escritores/críticos (homens)
que chamavam a si o ímpeto da criação artística, como uma
propriedade ou capacidade de género. Aí reside talvez a explicação de não haver
hoje uma história da poesia feminina, ou melhor, da poesia
feita por mulheres, através dos tempos, digna desse nome. Uma outra razão que pode justificar o “apagão” residirá
no facto de terem sido rejeitados cânones alternativos, favoráveis às mulheres,
durante séculos consecutivos. Sabe-se que muitas daquelas que primeiramente tentaram
alargar a sua poesia para além da esfera do privado, foram ridicularizadas,
enxovalhadas e recambiadas para dentro dos limites da pesada virtude da
domesticidade, quando não mandadas para conventos ou manicómios,
sendo-lhes desta forma vedado o acesso a uma identidade criadora própria. A exceção à regra verifica-se em camadas da sociedade privilegiadas, onde o fazer poético se tolerava às mulheres. Foi
necessário, às aspirantes a poetas* libertarem-se da passividade dos papeis que lhes eram reservavam e do clima hostil em que se movimentavam. E não
terá sido, não foi, por certo, um percurso fácil. Virgínia Woolf chega a opinar: se uma hipotética irmã de Shakespeare tivesse nascido com o
mesmo talento deste, teria sido rapidamente levada à loucura – ou mesmo à
própria morte – sem que tivesse conseguido escrever uma só linha.
Na minha opinião, este (e outros)
caminhos não estão totalmente calcorreados pelas mulheres, embora se pense o contrário, o que não deixa de ser perigoso. Estou ciente que demorará ainda, até que as
mentalidades machistas dos novos guardadores da moral, da “decência”, dos
adeptos incorrigíveis da submissão da mulher, abram os olhos à realidade e
despertem para outras mais arejadas paisagens. Se não o fizerem, azar o seu.
É tarde de mais para que alguma mulher que se preze, baixe os braços e renegue
a sua arte, a sua escrita, a sua imaginação e poder criativo, em consequência de tentativas de
descredibilização, depreciação e até humilhação que vão persistindo, à luz do século XXI, com o intuito de culpar
a mulher por ser MULHER. Já nenhuma destas se contenta em ser a musa, a deusa, a louca, a personagem mitológica, o “Outro” que
o homem pretende dominar e transcender com a sua "caneta masculina".
* (excluo o termo
"poetisa", propositadamente, recusando o sentido depreciativo que, em
certos meios culturais e literários, foi sendo associado à palavra, com o objetivo de minorar a arte poética produzida por mulheres.)
***
Os meus poemas foram e são os meus
maiores pecados. Também eu, (desde que, nos primórdios dos anos setenta,
adolescente ainda, comecei a escrever e a esconder poemas, receosa das
condenações e dos juízos impregnados de ideias salazarentas, com cheiro a mofo
da época), senti uma pressão forte e contínua para asfixiar a minha apetência
para a escrita, desde logo a partir da família, com exceções
(decisivas) de minha avó paterna e de meu pai, pessoas que, no entanto, perdi
muito cedo. Valeu-me, depois, o incentivo de alguns (bons) professores, as
notas escolares, as “redacções”, primeiro, (mais tarde, relatórios, textos de
opinião, actas, poemas …) feitas a pedido de amigos, mais ou menos atormentados
com a necessidade de apresentar textos, neste ou naquele contexto, trabalhos esses que lhes mereciam, (a eles), alguns elogios que eu
tomava secretamente para mim. Foi a única coisa que "roubei" até hoje. Elogios. (que me pertenciam.)
***
No campo das mentalidades, sabemos que
os avanços se dão à velocidade do caracol, mas considero hoje consolidado o lugar da Poesia, dentro e fora de um Feminino consciente que procura honrar e
preservar o espaço próprio, conquistado a pulso com as únicas armas eficazes neste duro
combate: Educação, Conhecimento, Cultura.
Lídia Borges
