quinta-feira, 31 de outubro de 2019

“As vidas dos outros”



A vida… tão grande a vida!
E, contudo, oprimida
por margens de ferro incandescente. 
A nascença e a morte
duas datas somente
em calendários desunidos
por indefinido espaço.
Entre uma e outra, diz o poeta,
apenas a elevação da Arte,
ilusão plena de liberdade.
P'ra lá dessa, uma rasa normalidade,
aniquilamento da grandeza do homem,
da sua supremacia sobre a bestialidade.
[Ó Supremacia, porque te desmentes?]
Desta normalidade se fazem nossos dias,
um após outro, uns sucedendo aos outros,
os dias...
abrupto caudal de água a percorrer
vertiginosos leitos de rochas e lodos,
margens e gentes e prantos,
estranhíssimos jardins de vozes surdas
em apelo,
[a Compaixão morreu - dizem os noticiários.]
Quem se deixa comover?
Quem se deixa envolver?
Quem se deixa perturbar?

São eles?!... E nós?
vigiam-nos a resistência, os níveis de amorfismo,
a (in)capacidade de reação.
Vestem-nos  o hábito dos hábitos normais,
atrofiam-nos as mãos…
Possuímos mãos cada vez mais pequenas
carregadas de flores.
Meu Deus, carregadas de flores, ainda…

E de mortos.



Lídia Borges