quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia - Centenário do Nascimento




Odiei o que era fácil.
Procurei-me na luz, no mar, no vento
Sophia



E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1954), No tempo dividido in Obra Poética (2010: pág.292), Edição de Carlos Mendes de Sousa.


       Que direi eu dessa consciência amarga da ausência dos Deuses. Eles que haviam nascido da Natureza, como frutos, e a sua imagem era o êxtase manifestado no azul do mar, no branco da espuma, na luz branda dos jardins ao entardecer, no verde carregado das florestas. Que direi eu desse afastamento que nos adoece a memória, que nos ofusca a própria identidade.

        A ausência dos Deuses, mais uma obra dos homens.

Lídia Borges


(Foto: incluída na fotobiografia: Sophia de Mello Breyner Andersen / Uma vida de Poeta)