terça-feira, 19 de maio de 2020

Havia um barco a passar


(Bom Jesus -Braga, Foto s/ ind. autoria)


Impossível decifrar
a topografia do fundo dos olhos.

Havia um barco a passar
por dentro da memória, julgo eu,
um barco de cristal
a crescer amplamente
para a cintilação das vagas.
Era uma miragem de rios. Incontornável.
Puro olvido.

Os dias vibram, agora
em sua redondez estonteante
de verdes opulentos 
e líquidas constelações. 
Cantam
em todas as árvores,
em todos os cantos, 
em todas as bermas e veredas.
Cantam.

As mãos quentes do sol,
o coração limpo,
quase alegre, a entornar
a palavra que por aí vem.
Leve, a florejar 
como se do mundo
houvesse habitado apenas
histórias de crianças.

Sei que no inverno dos trigais,
anoitecidos os pássaros,
há de vir vestida de cinza e neve, a palavra. 
Virá fustigar de punhais, outras liras,

outras horas, 
que não estas. 

Nunca estas!



Lídia Borges