sexta-feira, 22 de maio de 2020

O autor

(Kulikov_Writer_E.N.Chirikov_1904)
I

O autor,
esse louco,
[para quem uma só vida 
é pouco],
ausenta-se do carreiro, 
às escondidas,
para ir embriagar-se
de brisas.

Acredita que
os pássaros não vão acabar
e os observadores de pássaros
também não.
Nem mesmo os delírios 
de funcionários cansados
correm perigo.
Porém os livros 
são reticências que fremem  
no extremo de um penhasco
sobre os destroços
da civilização.

Pelos livros, sim, pelos livros 
o autor
 T(r)eme.


II

Salve um livro da guilhotina.
Salve uma cabeça do vácuo.
Não há tempo - dizem as formigas
no carreiro sem parar.
Afaste-se. Saia da frente. Deixe passar.
E os fazedores de crises
compondo o nó da gravata:
de milagres, mil agruras.
Urge sangrar, suar, esgravatar. 
É preciso morrer.
É preciso matar.


III
Salve uma açucena
uma ave, um gladíolo.
Salve um poema, um quadro
uma escultura, uma balada.
Salve a Arte da soberba e do desprezo
dos aduladores da página branca
dos desencantadores  de sonhos.
Salve. Salve-se.



IV

Quanto vale o rio que corre nestas páginas?  
Líquidos textos,
abruptos ou serenos, tanto faz.
Levo as nascentes, os afluentes,
as azenhas, as cascatas, os açudes, 
os peixes, os seixos, 
tudo num só volume. 
Quanto vale?



Lídia Borges