(Kulikov_Writer_E.N.Chirikov_1904)
I
O autor,
esse louco,
[para quem
uma só vida
é pouco],
ausenta-se do
carreiro,
às escondidas,
para ir embriagar-se
de brisas.
Acredita
que
os pássaros não vão acabar
e os observadores de pássaros
também não.
Nem mesmo os delírios
de funcionários cansados
correm perigo.
Porém os livros …
são reticências que fremem
no extremo de um penhasco
sobre os destroços
sobre os destroços
da civilização.
Pelos livros, sim, pelos livros
o autor
II
Salve um livro da guilhotina.
Salve uma cabeça do vácuo.
Não há tempo - dizem as formigas
no carreiro sem parar.
Afaste-se. Saia da frente. Deixe passar.
E os fazedores de crises
compondo o nó da gravata:
de milagres, mil agruras.
Urge sangrar, suar, esgravatar.
É preciso morrer.
É preciso matar.
III
Salve uma açucena
uma ave, um gladíolo.
Salve um poema, um quadro
uma escultura, uma balada.
Salve a Arte da soberba e do desprezo
dos aduladores da página branca
dos desencantadores de sonhos.
Salve. Salve-se.
IV
Salve. Salve-se.
IV
Quanto vale o rio que corre nestas páginas?
Líquidos textos,
abruptos ou serenos, tanto faz.
Levo as nascentes, os afluentes,
as azenhas, as cascatas, os açudes,
os peixes, os seixos,
tudo num só volume.
Quanto vale?tudo num só volume.
Lídia Borges
